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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Um Jardim

Um jardim


Peço silêncio

Minha história é longa e triste como a cabeleira de Ofélia


É um jardim desenhado em meu caderno. Madrugada. Instante dilacerante

em que a luz é tentação e promessa porque algo está morto, a noite.


– Só queria ver o jardim.

– Sou meu próprio espectro.

– Não se deve julgar o espectro porque se chega a sê-lo.

– Você é real?

– A imagem de um coração que enclausura a imagem de um jardim pelo qual choro.

– Ils jouent la pièce en étranger.[1]

– Sinto o mundo chorar como língua estrangeira.

– Das ganze verkerhrte Wesen fort.[2]

– Another calling: my own words coming back…[3]


Apenas buscava um lugar mais ou menos propício para viver, quer dizer: um lugar pequeno onde cantar e poder chorar tranquila de vez em quando. Na verdade, não queria uma casa; Sombra queria um jardim.

– Só vim ver o jardim – disse.


Mas cada vez que visitava um jardim comprovava que não era o que buscava, o que queria. Era como falar ou escrever. Depois de falar ou de escrever sempre tinha que explicar:


– Não, não é isso o que eu queria dizer.

E o pior é que também o silêncio a traía.

– É por que o silêncio não existe – disse.

O jardim, as vozes, a escritura, o silêncio.

– Não faço outra coisa além de buscar e não encontrar. Assim perco as noites.

Sentiu que era culpada de algo grave.

– Eu acredito nas noites – disse.

Não soube responder a isso: sentiu que cravavam uma flor azul em seu pensamento para que não seguisse o curso de seu discurso até o fundo.

– É porque o fundo não existe – disse.

A flor azul se abriu em sua mente. Viu palavras como pequenas pedras espalhadas no espaço negro da noite. Depois, passou um cisne com rodinhas com um grande macaco vermelho no interrogativo pescoço. Uma menininha que parecia com ela montava o cisne.

– Essa menininha fui eu – disse Sombra.


Sombra está desconcertada. Diz para si mesma que, na verdade, trabalha demais desde que Sombra morreu. Tudo é pretexto para ser um pretexto, pensou Sombra assombrada.


1-V-1972 


Alejandra Pizarnik

Tradução de Nina Rizzi



Un Jardín



Pido el silencio.

Mi historia es larga y triste como la cabellera de Ofelia.


Es un jardín dibujado en mi cuaderno. Madrugada. Instante desgarrado

en que la luz es tentación y promesa porque algo ha muerto,

la noche.


-Sólo quería ver el jardín.

-Soy mi propio espectro.

-No hay que jugar al espectro porque se llega a serlo.

-¿Sos real?

-La imagen de un corazón que encierra la imagen de un jardín

Por el que voy llorando.

-Ils jouent la pièce en ètranger.

(Juegan la pieza como un extraño)

-Sinto o mundo chorar como lingua estrangeira.

(Lloro por el mundo como lengua extranjera)

-Das ganze verkehrte Wesen fort.

(El sistema en su conjunto en posición invertida sobre)

-Another calling: my own words coming back…

(Otra llamada: mis propias Palabras a volver…)


Sólo buscaba un lugar más o menos propicio para vivir,

quiero decir: un sitio pequeño en donde cantar y poder llorar

tranquila a veces. En verdad no quería una casa; Sombra quería un jardín.

-Sólo vine a ver el jardín –dijo.

Pero cada vez que visitaba un jardín comprobaba que no era el que buscaba,

el que quería. Era como hablar o escribir. Después de hablar o de escribir

Siempre tenía que explicar:

-No, no es eso lo que yo quería decir.

Y lo peor es que también el silencio la traicionaba.

-Es porque el silencio no existe –dijo.

El jardín, las voces, la escritura, el silencio.

-No hago otra cosa que buscar y no encontrar. Así pierdo las noches.

Sintió que era culpable de algo grave.

-Yo creo en las noches –dijo.

A lo cual no supo responderse: sintió que le clavaban una flor azul

En el pensamiento con el fin de que no siguiera el curso de su discurso

Hasta el fondo.


-Es porque el fondo no existe –dijo.

La flor azul se abrió en su mente. Vio palabras como pequeñas piedras

diseminadas en el espacio negro de la noche. Luego,

pasó un cisne con rueditas con un gran moño rojo en el interrogativo cuello.

Una niñita que se le parecía montaba al cisne.

-Esa niñita fui yo –dijo Sombra.


Sombra está desconcertada. Se dice que, en verdad trabaja demasiado

Desde que murió Sombra.  Todo es pretexto para ser un pretexto,

Pensó Sombra asombrada.


Alejandra Pizarnik

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Auto-retrato aos vinte anos

Eu fui embora, tomei meu caminho e nunca soube
até onde poderia me levar. Fui cheio de medo,
meu estômago revirou e a cabeça zumbia:
acho que era o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei ir, pensei que era uma pena
terminar tão de repente, mas por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você o escuta ou não o escuta, e eu o escutei
e quase caí no choro: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei ir, encostei minha face
na face da morte.
E era impossível fechar meus olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
ainda que embutido numa realidade rapidíssima:
milhares de garotos como eu, imberbes
ou barbados, mas todos latino-americanos,
unindo suas faces com as da morte.

Por Roberto Bolaño 
Tradução de Rodrigo Garcia Lopes


Autorretrato a los veinte años

Me dejé ir, lo tomé en marcha y no supe nunca
hacia dónde hubiera podido llevarme. Iba lleno de miedo,
se me aflojó el estómago y me zumbaba la cabeza:
yo creo que era el aire frío de los muertos.
No sé. Me dejé ir, pensé que era una pena
acabar tan pronto, pero por otra parte
escuché aquella llamada misteriosa y convincente.
O la escuchas o no la escuchas, y yo la escuché
y casi me eché a llorar: un sonido terrible,
nacido en el aire y en el mar.
Un escudo y una espada. Entonces,
pese al miedo, me dejé ir, puse mi mejilla
junto a la mejilla de la muerte.
Y me fue imposible cerrar los ojos y no ver
aquel espectáculo extraño, lento y extraño,
aunque empotrado en una realidad velocísima:
miles de muchachos como yo, lampiños
o barbudos, pero latinoamericanos todos,
juntando sus mejillas con la muerte.

Roberto Bolaño

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um cego

Um cego

Não sei qual é a cara que me mira
Quando olho minha cara em um espelho;
Em seu reflexo não sei quem é o velho
Que me olha com cansada e muda ira.

Lento na sombra, com a mão exploro
As invisíveis rugas. Eis que assoma
Um lampejo. Vislumbro a tua coma
Que hoje é cinza ou ainda é de ouro.

Repito que perdi unicamente
A aparência superficial das cousas.
O consolo é de Milton e é potente,

Mas penso nas palavras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver-me a cara
Saberia quem sou na tarde rara.

 Jorge Luis Borges
 trad. de Augusto de Campos


Un ciego

No sé cuál es la cara que me mira
Cuando miro la cara del espejo;
No sé qué anciano acecha en su reflejo
Con silenciosa y ya cansada ira.

Lento en mi sombra, con la mano exploro
Mis invisibles rasgos. Un destello
Me alcanza. He vislumbrado tu cabello
Que es de ceniza o es aún de oro.

Repito que he perdido solamente
La vana superficie de las cosas.
El consuelo es de Milton y es valiente,

Pero pienso en las letras y en las rosas.
Pienso que si pudiera ver mi cara
Sabría quién soy en esta tarde rara.



BORGES, Jorge Luis. Quase Borges. 20 poemas e uma entrevista. Traduções de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Senhor D. João, quietinho, que me enfado:


Senhor D. João, quietinho, que me enfado:
beijar a mão é muito atrevimento;
abraçar-me… isso não, que me apoquento.
Cosquinhas… ai Joãozinho… e o pecado?

Como são maus os homens… mas cuidado
que me parece ouvir passos lá dentro…
não é ninguém… apressa o teu momento.
Ai que prazer… tão doce e regalado!

Jesus, sou uma louca, quem diria
que com um homem eu… sendo cristã
mas… que… de puro gozo… ai! vida minha!

Quanta vergonha… Vai-te… Queres mais?
O que tivestes não te satisfaz?
Oh meu Joãozinho, voltas amanhã?


Tomás de Iriarte (1750-1791)
Tradução de José Paulo Paes



Señor don Juan, quedito, que me enfado:
besar la mano es mucho atrevimiento;
abrazarme… don Juan, no lo consiento.
Cosquillas… ay Juanito… ¿y el pecado?

Qué malos son los ombres… mas, cuidado,
que me parece, Juan, que pasos siento…
no es nadie…, despachemos un momento.
¡Ay, qué placer… tan dulce y regalado!

Jesús, qué loca soy, quién lo creyera
que con un hombre yo… siendo cristiana
mas… que… de puro gusto… ¡ay… alma mia!

Ay, qué vergüenza, vete… ¿aún tienes gana?
Pues quando tú lo pruebes otra vez…
pero, Juanito, ¿volverás mañana?


Tomás de Iriarte (1750-1791)



Paes, José Paulo  Poesia Erótica em tradução, Companhia Das Letras, 1990.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Relógio

Relógio

Dama pequeníssima
moradora no coração de um pássaro
sai na alba a pronunciar uma sílaba
                         NÃO


RELOJ 

Dama pequeñísima
moradora en el corazón de un pájaro
sale al alba a pronunciar una sílaba
                     NO

Alejandra Pizarnik

Tradução de João Alexandre Sartorelli 


sábado, 29 de junho de 2013

RETRATO

RETRATO

Minha infância: memórias de um pátio de Sevilha,
e de um horto claro onde madura o limoeiro;
juventude, vinte anos em terras de Castilha;
a minha história quero esquecer por inteiro.
Mañara, nem Bradomín hei sido
— já conheceis meu torpe alinho indumentário —
mas recebi a flecha que me apontou Cupido,
e amei quanto elas possam ter de hospitalário.
Tenho nas veias gotas de estirpe jacobina,
mas o meu verso brota de manancial sereno;
e, mais que o homem usual que sabe sua doutrina,
eu sou um homem bom, um homem sem veneno.
Adoro a formosura, e na moderna estética
cortei as velhas rosas do jardim de Ronsard;
mas não amo os enfeites da moderna cosmética,
nem sou uma ave dessas do novo gay-trinar.
Eu desdenho as romanças desses tenores pecos
e dos grilos o coro a cantar ao luar.
Procuro distinguir entre as vozes e os ecos,
e entre as vozes só escuto a que prefiro amar.
Sou clássico ou romântico? Não sei. Deixar quisera
meu verso como deixa o capitão sua espada;
famosa pela mão viril que ao alto a erguera,
não pelo douto ofício do forjador prezada.
Dialogo com o homem que sempre vai comigo
— quem fala a sós, espera falar a Deus um dia —
meu solilóquio é prática com este bom amigo
que ensinou-me o segredo de sua filantropia.
Enfim, nada vos devo; deveis-me o que hei escrito.
A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago
a roupa que me cobre e a mansão que habito,
o pão que me alimenta e o leito onde me apago.
E quando chegue o dia da última viagem,
e esteja de partida a nau sem retornar,
me encontrareis a bordo ligeiro de equipagem,
quase desnudo, nu como os filhos do mar

Antonio Machado
Tradução de Fernando Mendes Vianna


RETRATO



Mi infancia son recuerdos de un patio de Sevilla,
y un huerto claro donde madura el limonero;
mi juventud, veinte años en tierra de Castilla;
mi historia, algunos casos que recordar no quiero.
Ni un seductor Mañara, ni un Bradomín he sido
— ya conocéis mi torpe aliño indumentario —,
mas recibí la flecha que me asignó Cupido,
y amé cuanto ellas puedan tener de hospitalario.
Hay en mis venas gotas de sangre jacobina,
pero mi verso brota de manantial sereno;
y más que un hombre al uso que sabe su doctrina,
soy, en el buen sentido de la palabra, bueno.
Adoro la hermosura, y en la moderna estética
corté las viejas rosas del huerto de Ronsard;
mas no amo los afeites de la actual cosmética,
ni soy un ave de esas del nuevo gay-trinar.
Desderio las romanzas de los tenores huecos
y el coro de los grillos que cantan a la luna.
A distinguir me paro las voces de los ecos,
y escucho solamente, entre las voces, una.
¿Soy clásico o romántico? No sé. Dejar quisiera
mi verso, como deja el capitán su espada;
famosa por la mano viril que la blandiera,
no por el docto oficio del forjador preciada.
Converso con el hombre que siempre va conmigo
— quien habla solo espera hablar a Dios un día —;
mi soliloquio es plática con este buen amigo
que me enseñó el secreto de la filantropía.
Y al cabo, nada os debo; debéisme cuanto he escrito.
A mi trabajo acudo, con mi dinero pago
el traje que me cubre y la mansión que habito,
el pan que me alimenta y el lecho en donde yago.
Y cuando llegue el día del último viaje,
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar,
me encontraréis a bordo ligero de equipaje,
casi desnudo, como los hijos de la mar.


Antonio Machado

terça-feira, 28 de maio de 2013

Soneto II

SONETO II

Já imóvel na luz, porém dançante
teu movimento na quietude que cria
na cimeira da vertigem se alia,
detendo, não ao voo, sim ao instante.

Chama que não se verte, já diamante,
sedento resplendor que não esfria
a si mesmo se queima noite e dia,
de cinzas e fogo equidistante.

Espada, língua, incêndio cinzelado,
minha sede nem suspende nem a mata,
gelada luz, luzeiro ensimesmado,

relâmpago sedento que desata
as geométricas vozes, ternura
com que fixo tua dança em escultura.

Octavio Paz
         Tradução de Antonio Miranda




SONETO II

Inmóvil en la luz, pero danzante,
tu movimento a la quietude que cria
em la cima del vértigo se alía,
deteniendo, no al vuelo, si al instante.

Llama que no se vierte, ya diamante,
sediento resplandor que no se enfría
y a sí mismo se quema noche y día,
de cenizas y fuego equidistante.

Espada, lengua, incêndio cinzelado,
que ni mi sed suspende ni la mata,
helada luz, lucero ensimesmado,

relâmpago sediento que desata
mis geométricas vocês, la ternura
com que fijo tu danza em escultura.

Octavio Paz
                 (De Orilla del Mundo, 1942)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Espiral

 ESPIRAL

Como o cravo no seu talo,
como o cravo, eis o foguete,
que é um cravo de disparo.

É foguete o torvelinho:
sobe ao céu e se despluma,
canto de ave no pinho.

Como o cravo e como o vento
o caracol é foguete:
empedrado movimento.

E a espiral em cada coisa
seu vibrar difunde em giros:
um mover que não repousa.

O caracol foi corola,
eco de eco, luz, vento,
onda que se encaracola.


Octavio Paz

Tradução de Haroldo de Campos



ESPIRAL

Como el clavel sobre su vara,
como el clavel, es el cohete:
es un clavel que se dispara.

Como el cohete el torbellino:
Sube hasta el cielo y se desgrana,
canto de pájaro en un pino.

Como el clavel y como el viento
el caracol es un cohete:
petrificado movimiento.

Y la espiral en cada cosa
su vibración difunde en giros:
el movimiento no reposa.

El caracol ayer fue ola,
mañana luz y viento, son,
eco del eco, caracola.

Octavio Paz





 





domingo, 26 de maio de 2013

Arcos

ARCOS

          A Silvina Ocampo

 Quem canta nas ourelas do papel?
 De bruços, inclinado sobre o rio
 de imagens, me vejo, lento e só,
 ao longe de mim mesmo: ó letras puras,
 constelação de signos, incisões
 na carne do tempo, ó escritura,
 risca na água!

          Vou entre verdores
 enlaçados, adentro transparências,
 entre ilhas avanço pelo rio,
 pelo rio feliz que se desliza
 e não transcorre, liso pensamento.
 Me afasto de mim mesmo, me detenho
 sem deter-me nessa margem, sigo
 rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
 imagens, o rio pensativo.

 Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
 rio feliz que enlaça e desenlaça
 um momento de sol entre dois olmos,
 sobre a polida pedra se demora
 e se desprende de si mesmo e segue,
 rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

 1947*

Octavio Paz

Tradução de Haroldo de Campos


ARCOS

         A Silvina Ocampo

¿Quién canta en las orillas del papel?
Inclinado, de pechos sobre el río
de imágenes, me veo, lento y solo,
de mí mismo alejarme: oh letras puras,
constelación de signos, incisiones
en la carne del tiempo, ¡oh escritura,
raya en el agua!

Voy, entre verdores
enlazados, voy entre transparencias,
entre islas avanzo por el río,
por el río feliz que se desliza
y no transcurre, liso pensamiento.
Me alejo de mí mismo, me detengo
sin detenerme en una orilla y sigo,
río abajo, entre arcos de enlazadas
imágenes, el río pensativo.

Sigo, me espero allá, voy a mi encuentro,
río feliz que enlaza y desenlaza
un momento de sol entre dos álamos,
en la pulida piedra se demora,
y se desprende de sí mismo y sigue,
río abajo, al encuentro de sí mismo.

1947

Octavio Paz


 

sábado, 25 de maio de 2013

Irmandade / Hermandad

IRMANDADE      
   
                 Homenagem a Cláudio Ptolomeu 
                  
  
Sou homem: duro pouco
e é desmedida a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Se também sou escritura
e eis que alguém neste mesmo
instante me soletra

 Octavio Paz

 Traduzido por Anderson Braga Horta



HERMANDAD 
 
                Homenaje a Claudio Ptolomeo



Soy hombre: duro poco
y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
las estrellas escriben.
Sin entender comprendo:
también soy escritura
y en este mismo instante
alguien me deletrea.


 Octavio Paz

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Y la ciudad ahora es como un plano

Y la ciudad ahora es como un plano
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esta puerta he visto los ocasos
Y ante este mármol he aguardado en vano.

Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana, aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto.

Aquí la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana

Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto.

Borges

sábado, 10 de setembro de 2011

James Joyce


En un día del hombre están los días
del tiempo, desde aquel inconcebible
día inicial del tiempo, en que un terrible
Dios prefijó los días y agonías

hasta aquel otro en que el ubicuo río
del tiempo terrenal torne a su fuente,
que es lo Eterno, y se apague en el presente,
el futuro, el ayer, lo que ahora es mío.

entre el alba y la noche está la historia
universal. Desde la noche veo
a mis pies los caminos del hebreo,

Cartago aniquilada, Infierno y Gloria.
Dame, Señor, coraje y alegría
para escalar la cumbre de este día.


Jorge Luis Borges
Cambridge, 1968


James Joyce

Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias

até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente,
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo.

Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,

Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

(Cambridge, 1968)

Poesia, de Jorge Luis Borges. Editora Companhia das Letras, 2009. Tradução de Josely Vianna Baptista.

sábado, 9 de julho de 2011

Campo

A tarde está morrendo
como uma fogueira humilde que se apaga.

Além, sobre os montes,
restam algumas brasas.

E essa árvore rota no caminho branco,
faz chorar de pena.

Dois ramos no tronco ferido, e uma
folha murcha e negra em cada ramo!

Choras? ... Entre álamos de ouro,
longe, a sombra do amor te aguarda.

Antonio Machado
Tradução de Antonio Miranda

La tarde está muriendo
como un hogar humilde que se apaga.


Allá sobre los montes,
quedan algunas brasas.


Y ese árbol roto en el camino blanco,
hace llorar de lástima.


¡Dos ramas en el tronco herido, y una
hoja marchita y negra en cada rama!


¿Lloras?... Entre los álamos de oro,
lejos, la sombra del amor te aguarda.


Antonio Machado

domingo, 29 de maio de 2011

Gosto quando te calas/Me gustas cuando callas

15

Gosto quando te calas porque estás como ausente
e me escutas de longe; minha voz não te toca.
É como se tivessem esses teus olhos voado,
como se houvesse um beijo lacrado a tua boca.

Como as coisas estão repletas de minha alma,
repleta de minha alma, das coisas te irradias.
Borboleta de sonho, és igual à minha alma,
e te assemelhas à palavra melancolia.

Gosto quando te calas e estás como distante.
Como se te queixasses, borboleta em arrulho.
E me escutas de longe. Minha voz não te alcança.
Deixa-me que me cale com teu silêncio puro.

Deixa-me que te fale também com. teu silêncio
claro qual uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo.

Gosto quando te calas porque estás como ausente.
Distante e triste como se tivesses morrido.
Uma palavra então e um s6 sorriso bastam.
E estou alegre, alegre por não ter sido isso.

Pablo Neruda in 20 Poemas de Amor e uma canção desesperada
Tradução :Domingos Carvalho da Silva
José Olímpio Editora- RJ -1974


15


Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ,ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.


Como todas las cosas están llenas de mi alma,
emerges de las cosas llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.


Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza.
Déjame que me calle con el silencio tuyo.


Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.




Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.


Pablo Neruda

sábado, 28 de maio de 2011

Vou dormir/Voy a dormir

Vou dormir

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.

Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho

Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos

Para que esqueças… obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que saí…

Alfonsina Storni
Tradução de Héctor Zanetti


Voy a dormir

Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados.

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito.

Déjame sola: oyes romper los brotes…
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases

para que olvides… Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido.

Alfonsina Stornio

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ENIGMA DE LA DESEOSA

Muchacha imperfecta busca hombre imperfecto
de 32, exige lectura
de Ovidio, ofrece: a) dos pechos de paloma,
b) toda su piel liviana
para los besos, c) mirada
verde para desafiar el infortunio
de las tormentas;
no va a las casas
ni tiene teléfono, acepta
imantación por pensamiento. No es Venus;
tiene la voracidad de Venus.


Gustavo Rojas (20/12/1917 – 25/04/2011)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Destino do poeta/Destino de poeta

Destino do poeta

Palavras? Sim, de ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

Octavio  Paz
Tradução de Haroldo de Campos

Destino de poeta

¿Palabras? Sí, de aire,
y em el aire perdidas.
Déjame que me pierda entre palavras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos,
breve aroma que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.



PAZ, Octavio; CAMPOS, Haroldo. Transblanco (em torno a Blanco de Octavio Paz. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A mis soledades voy

A mis soledades voy,
de mis soledades vengo,
porque para andar conmigo
me bastan mis pensamientos.

No sé qué tiene el aldea
donde vivo y donde muero,
que con venir de mí mismo,
no puedo venir más lejos.

Ni estoy bien ni mal conmigo;
mas dice mi entendimiento
que un hombre que todo es alma
está cautivo en su cuerpo.

Entiendo lo que me basta,
y solamente no entiendo
cómo se sufre a sí mismo
un ignorante soberbio.

De cuantas cosas me cansan,
fácilmente me defiendo;
pero no puedo guardarme
de los peligros de un necio.

Él dirá que yo lo soy,
pero con falso argumento;
que humildad y necedad
no caben en un sujeto.

La diferencia conozco,
porque en él y en mí contemplo
su locura en su arrogancia,
mi humildad en mi desprecio.

O sabe naturaleza
más que supo en este tiempo,
o tantos que nacen sabios
es porque lo dicen ellos.

«Sólo sé que no sé nada»,
dijo un filósofo, haciendo
la cuenta con su humildad,
adonde lo más es menos.

No me precio de entendido,
de desdichado me precio;
que los que no son dichosos,
¿cómo pueden ser discretos?

No puede durar el mundo,
porque dicen, y lo creo,
que suena a vidrio quebrado
y que ha de romperse presto.

Señales son del juicio
ver que todos le perdemos,
unos por carta de más,
otros por carta de menos.

Dijeron que antiguamente
se fue la verdad al cielo;
tal la pusieron los hombres,
que desde entonces no ha vuelto.

En dos edades vivimos
los propios y los ajenos:
la de plata los estraños,
y la de cobre los nuestros.

¿A quién no dará cuidado,
si es español verdadero,
ver los hombres a lo antiguo
y el valor a lo moderno?

Todos andan bien vestidos,
y quéjanse de los precios,
de medio arriba romanos,
de medio abajo romeros.

Dijo Dios que comería
su pan el hombre primero
en el sudor de su cara
por quebrar su mandamiento;

y algunos, inobedientes
a la vergüenza y al miedo,
con las prendas de su honor
han trocado los efectos.

Virtud y filosofía
peregrinan como ciegos;
el uno se lleva al otro,
llorando van y pidiendo.

Dos polos tiene la tierra,
universal movimiento,
la mejor vida el favor,
la mejor sangre el dinero.

Oigo tañer las campanas,
y no me espanto, aunque puedo,
que en lugar de tantas cruces
haya tantos hombres muertos.

Mirando estoy los sepulcros,
cuyos mármoles eternos
están diciendo sin lengua
que no lo fueron sus dueños.

¡Oh, bien haya quien los hizo!
Porque solamente en ellos
de los poderosos grandes
se vengaron los pequeños.

Fea pintan a la envidia;
yo confieso que la tengo
de unos hombres que no saben
quién vive pared en medio.

Sin libros y sin papeles,
sin tratos, cuentas ni cuentos,
cuando quieren escribir,
piden prestado el tintero.

Sin ser pobres ni ser ricos,
tienen chimenea y huerto;
no los despiertan cuidados,
ni pretensiones ni pleitos;

ni murmuraron del grande,
ni ofendieron al pequeño;
nunca, como yo, firmaron
parabién, ni Pascuas dieron.

Con esta envidia que digo,
y lo que paso en silencio,
a mis soledades voy,
de mis soledades vengo.

Lope de Vega

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NÔMINA DE OSSOS / NÓMINA DE HUESOS

Se pedia em alta voz:
—Que mostre as duas mãos de uma vez.
Isso não era possível.

—Que, enquanto chora, tomem a medida de seus passos.
Isso não era possível.

—Que pense um pensamento idêntico,
ao tempo em que um zero permanece inútil.
Isso não era possível.

—Que cometa uma loucura.
Isso não foi possível.

—Que entre ele e outro homem semelhante a ele,
se interponha uma multidão de homens como ele.

—Que o comparem consigo mesmo.
Isso não era possível.

—Que o chamem, enfim, por seu nome.
Isso não era possível.

César Vallejo
Tradução de Antonio Miranda



NÓMINA DE HUESOS


Se pedía a grandes voces:
—Que muestre las dos manos a la vez.
Y esto no fue posible.
—Que, mientras llora, le tomen la medida de sus pasos.
Y esto no fue posible.
—Que piense un pensamiento idéntico, en el tiempo en que un cero permanece inútil.
Y esto no fue posible.
—Que haga una locura.
Y esto no fue posible.
—Que entre él y otro hombre semejante a él, se interponga una muchedumbre de hombres como él.
Y esto no fue posible.
—Que le comparen consigo mismo.
Y esto no fue posible.
—Que le llamen, en fin, por su nombre.
Y esto no fue posible.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

José Luis Hidalgo: "Si supiera, Señor..." / "Se soubesse, Senhor..."

Se soubesse, Senhor...

Se soubesse, Senhor, que Tu me esperas
na borda implacável da morte,
iria a tua luz, como uma lança
que atravessa a noite e nunca volta.

Porém sei que não estás, que viver só
é sonhar com teu ser, inutilmente,
e sei que, quando eu morra, é que Tu mesmo
Terás morrido com a minha morte.


Si supiera, Señor...

Si supiera, Señor, que Tú me esperas,
en el borde implacable de la muerte,
iría hacia tu luz, como una lanza
que atraviesa la noche y nunca vuelve.

Pero sé que no estás, que el vivir sólo
es soñar con tu ser, inútilmente,
y sé que cuando muera es que Tú mismo
será lo que habrá muerto con mi muerte.



HIDALGO, José Luis. In: RODRIGUEZ, M.D. y TABOADA, M.P.D. (orgs.) Antologia de la poesía española del siglo XX. Madrid: Istmo, 1991.


Tradução de Antonio Cicero