Mostrando postagens com marcador O espaço interior. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O espaço interior. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Um Jardim

Um jardim


Peço silêncio

Minha história é longa e triste como a cabeleira de Ofélia


É um jardim desenhado em meu caderno. Madrugada. Instante dilacerante

em que a luz é tentação e promessa porque algo está morto, a noite.


– Só queria ver o jardim.

– Sou meu próprio espectro.

– Não se deve julgar o espectro porque se chega a sê-lo.

– Você é real?

– A imagem de um coração que enclausura a imagem de um jardim pelo qual choro.

– Ils jouent la pièce en étranger.[1]

– Sinto o mundo chorar como língua estrangeira.

– Das ganze verkerhrte Wesen fort.[2]

– Another calling: my own words coming back…[3]


Apenas buscava um lugar mais ou menos propício para viver, quer dizer: um lugar pequeno onde cantar e poder chorar tranquila de vez em quando. Na verdade, não queria uma casa; Sombra queria um jardim.

– Só vim ver o jardim – disse.


Mas cada vez que visitava um jardim comprovava que não era o que buscava, o que queria. Era como falar ou escrever. Depois de falar ou de escrever sempre tinha que explicar:


– Não, não é isso o que eu queria dizer.

E o pior é que também o silêncio a traía.

– É por que o silêncio não existe – disse.

O jardim, as vozes, a escritura, o silêncio.

– Não faço outra coisa além de buscar e não encontrar. Assim perco as noites.

Sentiu que era culpada de algo grave.

– Eu acredito nas noites – disse.

Não soube responder a isso: sentiu que cravavam uma flor azul em seu pensamento para que não seguisse o curso de seu discurso até o fundo.

– É porque o fundo não existe – disse.

A flor azul se abriu em sua mente. Viu palavras como pequenas pedras espalhadas no espaço negro da noite. Depois, passou um cisne com rodinhas com um grande macaco vermelho no interrogativo pescoço. Uma menininha que parecia com ela montava o cisne.

– Essa menininha fui eu – disse Sombra.


Sombra está desconcertada. Diz para si mesma que, na verdade, trabalha demais desde que Sombra morreu. Tudo é pretexto para ser um pretexto, pensou Sombra assombrada.


1-V-1972 


Alejandra Pizarnik

Tradução de Nina Rizzi



Un Jardín



Pido el silencio.

Mi historia es larga y triste como la cabellera de Ofelia.


Es un jardín dibujado en mi cuaderno. Madrugada. Instante desgarrado

en que la luz es tentación y promesa porque algo ha muerto,

la noche.


-Sólo quería ver el jardín.

-Soy mi propio espectro.

-No hay que jugar al espectro porque se llega a serlo.

-¿Sos real?

-La imagen de un corazón que encierra la imagen de un jardín

Por el que voy llorando.

-Ils jouent la pièce en ètranger.

(Juegan la pieza como un extraño)

-Sinto o mundo chorar como lingua estrangeira.

(Lloro por el mundo como lengua extranjera)

-Das ganze verkehrte Wesen fort.

(El sistema en su conjunto en posición invertida sobre)

-Another calling: my own words coming back…

(Otra llamada: mis propias Palabras a volver…)


Sólo buscaba un lugar más o menos propicio para vivir,

quiero decir: un sitio pequeño en donde cantar y poder llorar

tranquila a veces. En verdad no quería una casa; Sombra quería un jardín.

-Sólo vine a ver el jardín –dijo.

Pero cada vez que visitaba un jardín comprobaba que no era el que buscaba,

el que quería. Era como hablar o escribir. Después de hablar o de escribir

Siempre tenía que explicar:

-No, no es eso lo que yo quería decir.

Y lo peor es que también el silencio la traicionaba.

-Es porque el silencio no existe –dijo.

El jardín, las voces, la escritura, el silencio.

-No hago otra cosa que buscar y no encontrar. Así pierdo las noches.

Sintió que era culpable de algo grave.

-Yo creo en las noches –dijo.

A lo cual no supo responderse: sintió que le clavaban una flor azul

En el pensamiento con el fin de que no siguiera el curso de su discurso

Hasta el fondo.


-Es porque el fondo no existe –dijo.

La flor azul se abrió en su mente. Vio palabras como pequeñas piedras

diseminadas en el espacio negro de la noche. Luego,

pasó un cisne con rueditas con un gran moño rojo en el interrogativo cuello.

Una niñita que se le parecía montaba al cisne.

-Esa niñita fui yo –dijo Sombra.


Sombra está desconcertada. Se dice que, en verdad trabaja demasiado

Desde que murió Sombra.  Todo es pretexto para ser un pretexto,

Pensó Sombra asombrada.


Alejandra Pizarnik

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

DA SORTE

Quem quer escapar precisa de sorte.
Sem sorte
Ninguém se salva do frio
Da fome e mesmo dos homens.
Sorte ajuda.
Tive muita sorte. Por isso
Ainda estou aqui.
Mas vendo o futuro, percebo tremendo
O quanto de sorte ainda preciso.
Sorte ajuda.
Forte é quem tem sorte.
Um bom combatente e um sábio professor
É um que tem sorte.
Sorte ajuda.
.
* * *
.
VOM GLÜCK
Wer entkommen will, braucht Glück.
Ohne Glück
Rettet sich keiner von der Kalte
Vor dem Hunger oder gar vor Menschen.
Glück ist Hilfe.
Ich habe viel Glück gehabt. Deshalb
Bin ich noch da.
Aber in die Zukunft schauend, erkenne ich schaudernd
Wieviel Glück ich noch brauche.
Glück ist Hilfe.
Stark ist, wer Glück hat.
Ein guter Kämpfer und ein weiser Lehrer
Ist einer mit Glück.
Glück ist Hilfe.

Bertol Brecht
.
*
Trad.: André Vallias

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O POETA EM LISBOA

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


António José Forte

terça-feira, 18 de abril de 2017

SENSAÇÃO

Vejo cantar o pássaro
toco este canto com meus nervos
seu gosto de mel. Sua forma

gerando-se da ave
como aroma.
Vejo cantar o pássaro e através
da percepção mais densa
ouço abrir-se a distância
como rosa
em silêncio.

Orides Fontella

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Albatroz/L´albatros

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Charles Baudelaire
Tradução de Guillherme de Almeida

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.



Charles Baudelaire
Tradução de Ivan Junqueira


Às vezes, em recreio, os homens da equipagem
pegam um albatroz, enorme ave marinha
que segue, companheiro indolente de viagem,
o navio que sobre o atro abismo caminha.

Mal no convés se vê, todo desconjuntado,
logo esse rei do azul, em passos desiguais,
como dois remos, põe-se a arrastar a seu lado,
desajeitadamente, as asas colossais.

Esse alado viajor, como é grotesco andando!
Ei-lo horrível e inerme, ele que antes pairava!
Um chega-lhe o cachimbo ao bico, e outro, coxeando,
arremeda no andar o pobre que voava!

O poeta é o albatroz que nas nuvens se espraia,
que ri dos vendavais e afronta as setas, no ar;
exilado no solo, em meio ao riso e à vaia,
suas asas de gigante impedem-no de andar.

Charles Baudelaire
Tradução de Onestaldo de Pennafort

L'albatros]


Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.


A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.


Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!


Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.


Charles Baudelaire

domingo, 6 de novembro de 2016

Dó maior/ C-Dur

Rua abaixo
depois do amor
a neve revirou no ar.
O inverno havia chegado
enquanto um se deitava no outro.
A noite fez o branco brilhar.
Ele andou rápido de alegria.
E a cidade toda se inclinou.
Sorrisos pedestres –
atrás dos colarinhos abertos,
todos sorrisos. Era livre!
E todos os pontos de interrogação
começaram a cantar
a presença de Deus.

Era como ele via.
Uma música se soltou
e andou pelo delírio da neve
a passos largos.
Tudo em peregrinação
ao Dó.
Uma bússola tremendo
rumo ao Dó.
Uma hora acima das dores.
Era fácil!
Atrás dos colarinhos abertos,
todos sorrisos.

TOMAS TRANSTRÖMER

(Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback)

När han kom ner på gatan
efter kärleksmötet
virvlade snö i luften.
Vintern hade kommit
medan de låg hos varann.
Natten lyste vit.
Han gick fort av glädje.
Hela staden sluttade.
Förbipasserande leenden - 
alla log bakom uppfällda 
kragar. Det var fritt!
Och alla frågetecken 
började sjunga om
Guds tillvaro.

Så tyckte han.
En musik gjorde sig
lös och gick i yrande 
snö med långa steg.
Allting på vandring
mot ton C.
En darrande kompass
mot ton C.
En timme ovanför
plågorna.
Det var lätt!
Alla log bakom
uppfällda kragar.

Texto encontrado em modo de usar & co

terça-feira, 5 de abril de 2016

TEMPO / ZEIT

TEMPO

Me quedo aqui, eu tenho tempo,
atino aqui, eu tenho tempo.
O dia é escuro, ele tem tempo,
mais tempo do que eu quero, tempo
para que eu meça, longo tempo.
Medida cresce com o tempo.
Somente algo excede o tempo,
é a saudade: nenhum tempo
contemporiza com seu tempo.

Robert Walser
Tradução de André Vallias

ZEIT

Ich liege hier, ich hab ja Zeit,
ich sinne hier, ich hab ja Zeit.
Der Tag ist dunkel, er hat Zeit,
mehr Zeit als ich mir wünsche, Zeit
hab ich zu messen, lange Zeit.
Das Maß wird größer mit der Zeit.
Nur etwas übersteigt die Zeit,
das ist die Sehnsucht, keine Zeit
ist zeitig mit der Sehnsucht Zeit.


Robert Walser

domingo, 27 de setembro de 2015

Epigrama

Bom é ser árvore, vento:
sua grandeza inconsciente.
E não pensar, não temer.
Ser, apenas. Altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte.
Com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.

Marly de Oliveira

domingo, 29 de março de 2015

Abril e silêncio

A primavera jaz abandonada
Uma valeta de cor roxa escura
move-se ao meu lado
sem restituir nenhuma imagem.

A única coisa que brilha
são algumas flores amarelas.

Carrego-me dentro de minha
própria sombra como um violino
em seu estojo.

A única coisa que quero dizer
paira bem fora do alcance
como a prataria da família
numa casa de penhores

Tomas Tranströmer
Tradutora Enaiê Azambuja


April Och Tystnad

Våren ligger öde
Det sammetsmörka diket
krälar vid min sida
utan spegelbilder.

Det enda som lyser
är gula blommor.

Jag bärs i min skugga
som en fiol
i sin svarta låda.

Det enda jag vill säga
glimmar utom räckhåll
som silvret
hos pantlånaren.

Tomas Tranströmer


April and Silence

Spring lies forsaken.
The velvet-dark ditch
crawls by my side
without reflections.

The only thing that shines
are yellow flowers.

I am cradled in my shadow
like a fiddle
in its black case.

The only thing I want to say
glimmers out of reach
like the silver
at the pawnbroker’s.

Tomas Tranströmer
Tradutora Patty Crane

terça-feira, 28 de outubro de 2014

AOS PREDADORES DA UTOPIA

dentro de mim
morreram muitos tigres

os que ficaram
no entanto
são livres

Lau Siqueira

quarta-feira, 2 de abril de 2014

"Почти элегия" / "Quase uma elegia"

Quase uma elegia

Também eu aguardei na colunata
da Bolsa, outrora, o fim da chuva fria.
Julgava-a dom de Deus. E era sensata
minha suposição. Pois algum dia
também eu fui feliz. Fui prisioneiro
dos anjos. Combatia monstro horrendo.
Feito Jacó, fitava sorrateiro
uma beldade -rápido- descendo
a escada principal.
                               Aonde tudo
se foi. Sumiu. Olho janela afora:
o "aonde" acima, eu o escrevi, contudo,
sem ponto de interrogação. Agora
é setembro. Um trovão distante invade
meu ouvido. Eis um horto. Pêras pensas,
cheias de seiva nas ramagens densas,
parecem signos de virilidade.
E o ouvido admite, como gente avara
parentes na cozinha, um som assíduo
de chuva que, na mente, sem chegar a
música ainda, é mais do que ruído.

Joseph Brodsky: : tradução por Boris Schnaiderman e Nelson Ascher



Почти элегия

В былые дни и я пережидал

холодный дождь под колоннадой Биржи.
И полагал, что это - божий дар.
И, может быть, не ошибался. Был же
и я когда-то счастлив. Жил в плену
у ангелов. Ходил на вурдалаков.
Сбегавшую по лестнице одну
красавицу в парадном, как Иаков,
подстерегал.
                       Куда-то навсегда
ушло все это. Спряталось. Однако,
смотрю в окно и, написав "куда",
не ставлю вопросительного знака.
Теперь сентябрь. Передо мною - сад.
Далекий гром закладывает уши.
В густой листве налившиеся груши
как мужеские признаки висят.
И только ливень в дремлющий мой ум,
как в кухню дальних родственников - скаред,
мой слух об эту пору пропускает:
не музыку еще, уже не шум.

  
BRODSKY, Joseph. Quase uma elegia. Traduções de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Introdução e textos complementares de Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Sete Letras, 1996.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Às vezes, em Tardes de Inverno

Às vezes, em Tardes de Inverno,
Uma Luz Enviesada —
Como o Som das Catedrais
Opressora, Pesada —

Nos fere com Dor Divina —
Porém cicatriz não fica
Senão no fundo de nós,
Onde o Sentido habita —

É o Selo do Desespero —
A ele — Nada lhe Falta —
Angústia imperial
Que nos desce do alto

Quando vem, a Terra atenta —
Sombras — param no ar —
Quando vai, é como a Morte
Ao Longe, a se afastar —

(Emily Dickinson, tradução de Paulo Henriques Britto)

       

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —


Emily Dickinson

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Hora absurda

Hora absurda
                                                                      04/07/1913

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer cousa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixas dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Por que me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Vejo o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os casos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há cousas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque -
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - "Vitória"!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"

Fernando Pessoa

sábado, 8 de fevereiro de 2014

TAVIRA I

Não brincam no jardim
as infâncias perdidas

O lago já secou
nas grades do coreto
enforcaram-se os músicos

E a palmeira
sem tâmaras
marca só o lugar
do tempo que passou.

Yvette K Centeno

sábado, 14 de dezembro de 2013

Poema de Natal

Rio de Janeiro , 1946

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Pena de coisas que nem sei" / "Dolore di cose che ignoro"


 Pena de coisas que nem sei
 
Densa de brancas e de negras raízes
cheira a fermento e a vermes
a terra talhada d´água.

Pena de coisas que nem sei
em mim rebenta: não basta uma morte
se, escuta, mais vezes me pesa
no coração, com sua relva, um pedaço de terra.


Salvatore Quasimodo
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


Dolore di cose che ignoro

Fitta di bianche e di nere radici
di lievito odora e lombrichi;
tagliata dall’acque la terra.

Dolore di cose che ignoro
mi nasce: non basta una morte
se ecco più volte mi pesa
con l’erba, sul cuore, una zolla.

Salvatore Quasimodo



QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Esta noite


Esta noite
Versa, 22 de maio de 1916

Balaustrada de brisa
para apoiar nesta noite
minha melancolia

Giuseppe Ungaretti
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti



Stasera
Versa il 22 maggio 1916

Balaustrata di brezza
per appoggiare stasera
la mia malinconia


Giuseppe Ungaretti



UNGARETTI, Giuseppe. A alegria. Edição bilingue. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003

domingo, 26 de maio de 2013

Arcos

ARCOS

          A Silvina Ocampo

 Quem canta nas ourelas do papel?
 De bruços, inclinado sobre o rio
 de imagens, me vejo, lento e só,
 ao longe de mim mesmo: ó letras puras,
 constelação de signos, incisões
 na carne do tempo, ó escritura,
 risca na água!

          Vou entre verdores
 enlaçados, adentro transparências,
 entre ilhas avanço pelo rio,
 pelo rio feliz que se desliza
 e não transcorre, liso pensamento.
 Me afasto de mim mesmo, me detenho
 sem deter-me nessa margem, sigo
 rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
 imagens, o rio pensativo.

 Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
 rio feliz que enlaça e desenlaça
 um momento de sol entre dois olmos,
 sobre a polida pedra se demora
 e se desprende de si mesmo e segue,
 rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

 1947*

Octavio Paz

Tradução de Haroldo de Campos


ARCOS

         A Silvina Ocampo

¿Quién canta en las orillas del papel?
Inclinado, de pechos sobre el río
de imágenes, me veo, lento y solo,
de mí mismo alejarme: oh letras puras,
constelación de signos, incisiones
en la carne del tiempo, ¡oh escritura,
raya en el agua!

Voy, entre verdores
enlazados, voy entre transparencias,
entre islas avanzo por el río,
por el río feliz que se desliza
y no transcurre, liso pensamiento.
Me alejo de mí mismo, me detengo
sin detenerme en una orilla y sigo,
río abajo, entre arcos de enlazadas
imágenes, el río pensativo.

Sigo, me espero allá, voy a mi encuentro,
río feliz que enlaza y desenlaza
un momento de sol entre dos álamos,
en la pulida piedra se demora,
y se desprende de sí mismo y sigue,
río abajo, al encuentro de sí mismo.

1947

Octavio Paz


 

sábado, 25 de maio de 2013

Irmandade / Hermandad

IRMANDADE      
   
                 Homenagem a Cláudio Ptolomeu 
                  
  
Sou homem: duro pouco
e é desmedida a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Se também sou escritura
e eis que alguém neste mesmo
instante me soletra

 Octavio Paz

 Traduzido por Anderson Braga Horta



HERMANDAD 
 
                Homenaje a Claudio Ptolomeo



Soy hombre: duro poco
y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
las estrellas escriben.
Sin entender comprendo:
también soy escritura
y en este mismo instante
alguien me deletrea.


 Octavio Paz

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Talvez uma manhã andando num ar de vidro


Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde ~ e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

Eugenio Montale

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Forse un mattino andando in un’aria di vetro,
arida, rivolgendomi, vedrò compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s’uno schermo, s’accamperanno di gitto
Alberi case colli per l’inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n’andrò zitto
Tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.

Eugenio Montale