Mostrando postagens com marcador A arte do encontro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A arte do encontro. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Quando eu te desposar, teus dias

 Quando eu te desposar, teus dias



Quando eu te desposar, teus dias

     Serão dignos de invejas;

Desfrutarás mil alegrias

     E ociosidade régia.


Hei de perdoar-te mau humor,

     E queixas mas -- é claro –

Se não cobrires de louvor

     Meu verso, eu me separo.



Und bist du erst mein ehlich Weib



Und bist du erst mein ehlich Weib,

     Dann bist du zu beneiden,

Dann lebst du in lauter Zeitvertreib,

     In lauter Pläsier und Freuden.


Und wenn du schiltst und wenn du tobst,

     Ich werd es geduldig leiden;

Doch wenn du meine Verse nicht lobst,

     Laß ich mich von dir scheiden.



HEINE, Heinrich. "Und bist du erst mein ehlich Weib" / "Quando eu te desposar". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E o teu vestido é branco

 Tens a cabeça baixa e me olhas:

e o teu vestido é branco,

e um seio aflora de entre as rendas

soltas do teu ombro esquerdo.


A luz me supera; treme,

e te toca os braços nus.


Revejo-te. Tinhas

palavras poucas e breves,

que punham alma

no peso de uma vida

que sabia a circo.


Profunda era a estrada

por onde o vento descia

certas noites de inverno,

e nos despertava estranhos


Salvatore Quasimodo

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


Piegato hai il capo e mi guardi;

e la tua veste è bianca,

e un seno affiora dalla trina

sciolta sull’omero sinistro.


Mi supera la luce; trema,

e tocca le tue braccia nude.Ti rivedo. Parole

avevi chiuse e rapide,

che mettevano cuore

nel peso d’una vita

che sapeva di circo.Profonda la strada

su cui scendeva il vento

certe notti di marzo,

e ci svegliava ignoti

come la prima volta.


Salvatore Quasimodo

terça-feira, 20 de novembro de 2018

NÃO HÁ VIDA NEM MORTE

Não há Vida nem Morte
Apenas atividade
E na plenitude
Não há debilidade.
Não há Amor nem Desejo
Apenas vontade
Quem queria possuir
Tornou-se nulidade.
Não há Primeiro nem Último
Apenas iguadade
E quem iria dominar
Juntou-se à comunidade.
Não há Espaço nem Tempo
Apenas intensidade,
E as coisas dóceis
Não tem grandiosidade.

Mina Loy
Tradução de Vanderley Mendonça

There is no Life or Death
Only activity
And in the absolute
Is no declivity.
There is no Love or Lust
Only propensity
Who would possess
Is a nonentity.
There is no First or Last
Only equality
And who would rule
Joins the majority.
There is no Space or Time
Only intensity,
And tame things
Have no immensity.


Mina Loy

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
   
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
 
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memóra o fugidio
 
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!,

David Mourão-Ferreira

sábado, 5 de novembro de 2016

Esta noite não Josefina


ELE    o que é que você quer?
ELA    faz amor comigo
ELE    você é uma
           placenta que me suga seco e me envenena
           um útero que me sufoca e me esmaga
           um cordão umbilical que me ferroa e me estrangula
           sua vagina é a entrada do inferno
           esta noite não Josefina
ELA    você apaga qualquer uma
ELE    apague a luz
ELA    apague você

R. D. LAING
traduções de Virna Teixeira

:


Not tonight Josephine

HE     what do you want?
SHE   make love to me
HE     you are a
          placenta that sucks me dry and poisons me
          a womb that suffocates me and crushes me
          an umbilical cord that stings and strangles me
          your vagina is the entry to hell
          not tonight Josephine
SHE   you would put anyone off
HE     put out the light
SHE   you have to put it yourself

quinta-feira, 16 de junho de 2016

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas'

sábado, 9 de abril de 2016

CRISÁLIDA

para Luísa 

 agora já não pedes
 meus nervos em pasto

 agora já te afastas
crescida em beleza

 agora me contas piadas
que aprendes ou inventas

 agora pressinto tuas asas


Paula Grenadel

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PÔR-DO-SOL

E essa claridade
do ocaso?!... De ti, acaso
tem inveja a tarde?!

Alckmar Luiz dos Santos

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Esta noite morrerás.

Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres
partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus
passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações
de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito
é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier
tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,
a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que
o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço
um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca
dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de
noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe
o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão
mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro
para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos
teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de
tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

Ana Hatherly, in “Poesia 1958-1978”

sexta-feira, 20 de março de 2015

Não te diz meu rosto pálido

Não te diz meu rosto pálido
Que eu morro de amor por ti?!...
Queres que a bôca o proclame,
Quebre orgulhosa por si!..

Oh! que esta bôca mal sabe
Beijar, sorrisos compor,
Dizer sardônicos ditos
Enquanto eu morro de dor!


Heinrich Heine
Tradução de Gonçalves Dias

Verriet mein blasses Angesicht
Dir nicht mein Liebeswehe?
Und willst du, daß der stolze Mund
Das Bettelwort gestehe?

O, dieser Mund ist viel zu stolz,
Und kann nur küssen und scherzen;
Er spräche vielleicht ein höhnisches Wort,
Während ich sterbe vor Schmerzen.


Heinrich Heine

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Beijo Eterno

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormida em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa, -
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
De arrebol a arrebol,
Vão-se os dias sem conto! e as noites, como os dias,
Sem conto vão-se, cálidas ou frias!
Rutile o sol
Esplêndido e abrasador!
No alto as estrelas coruscantes,
Tauxiando os largos céus, brilhem como diamantes!
Brilhe aqui dentro o amor!
Suceda a treva à luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vênus, como uma flor,
Brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,
Brilhe à porta do Oriente! A treva e a luz - que importa?
Só nos importa o amor!
Raive o sol no Verão!
Venha o Outono! do Inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
Venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?
- Beijemo-nos, amor!
Beijemo-nos! que o mar
Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!
E cante o sol! a ave desperte e cante!
Cante o luar,
Cheio de um novo fulgor!
Cante a amplidão! cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa,
Cante, cante este amor!
Rasgue-se, à noite, o véu
Das neblinas, e o vento inquira o monte e o vale:
"Quem canta assim?" E uma áurea estrela fale
Do alto do céu
Ao mar, presa de pavor:
"Que agitação estranha é aquela?"
E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela
Responda que é o amor!
E a ave, ao sol da manhã,
Também, a asa vibrando, à estrela que palpita
Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:
"Que beijo, irmã! Pudesses ver com que ardor
Eles se beijam loucamente!"
E inveje-nos a estrela... - e apague o olhar dormente,
Morta, morta de amor!..
Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!", diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Olavo Bilac

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Explicação do Amor

        O amor em seu próprio corpo
        recebe os cacos que lança:
        Diálogo de briga ou rinha
        em tom de magia branca.

        O amor, o dos amantes,
        é sangue da cor de crista:
        Coagula insensivelmente
        nas polifaces de um prisma.

        O amor nunca barganha,
        que trocar não é seu fraco:
        Recebe sempre entornado
        como a concha de um prato.

        Amor não mata: previne
        o que vem depois do susto:
        Modela o aço e o braço
        que vão suportar o muro.

        O amor desconhece amor
        sem ter crueza por gosto:
        Contempla-se diante do espelho
        sem nunca ver o outro rosto.

Cacaso
(Antônio Carlos Ferreira de Brito)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ismália


            Quando Ismália enlouqueceu,
            Pôs-se na torre a sonhar...
            Viu uma lua no céu,
            Viu outra lua no mar.

            No sonho em que se perdeu,
            Banhou-se toda em luar...
            Queria subir ao céu,
            Queria descer ao mar...

            E, no desvario seu,
            Na torre pôs-se a cantar...
            Estava perto do céu,
            Estava longe do mar...

            E como um anjo pendeu
            As asas para voar...
            Queria a lua do céu,
            Queria a lua do mar...

            As asas que Deus lhe deu
            Ruflaram de par em par...
            Sua alma subiu ao céu,
            Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimaraens

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Não entro nessa dança, não incenso

Não entro nessa dança, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.

Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen,
Die außen goldig sind, inwendig Sand;
Ich schlag nicht ein, reicht mir ein Bub die Hand,
Der heimlich will den Namen mir zerfetzen.

Ich beug mich nicht vor jenen hübschen Metzen,
Die schamlos prunken mit der eignen Schand;
Ich zieh nicht mit, wenn sich der Pöbel spannt
Vor Siegeswagen seiner eiteln Götzen.

Ich weiß es wohl, die Eiche muß erliegen,
Derweil das Rohr am Bach, durch schwankes Biegen,
In Wind und Wetter stehn bleibt, nach wie vor.

Doch sprich, wie weit bringt’s wohl am End’ solch Rohr?
Welch Glück! als ein Spazierstock dient’s dem Stutzer,
Als Kleiderklopfer dient’s dem Stiefelputzer.


HEINE, Heinrich. "Sonetos-afresco". In:_____. heine hein?
poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias.
São Paulo: Perspectiva, 2011.

sábado, 9 de agosto de 2014

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso 
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto 
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto 
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos 
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui 
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
.
[Ruy Belo - Toda a Terra Todos os Poemas, Assírio & Alvim]

domingo, 27 de abril de 2014

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura

domingo, 23 de março de 2014

É por Ti que Vivo

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

António Ramos Rosa, in 'O Teu Rosto'

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quanto, quanto me queres? — perguntaste

Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei — não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.


BOTTO, António. As canções de António Botto. Lisboa: Presença, 1999.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira