Mostrando postagens com marcador César Vallejo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador César Vallejo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

NÔMINA DE OSSOS / NÓMINA DE HUESOS

Se pedia em alta voz:
—Que mostre as duas mãos de uma vez.
Isso não era possível.

—Que, enquanto chora, tomem a medida de seus passos.
Isso não era possível.

—Que pense um pensamento idêntico,
ao tempo em que um zero permanece inútil.
Isso não era possível.

—Que cometa uma loucura.
Isso não foi possível.

—Que entre ele e outro homem semelhante a ele,
se interponha uma multidão de homens como ele.

—Que o comparem consigo mesmo.
Isso não era possível.

—Que o chamem, enfim, por seu nome.
Isso não era possível.

César Vallejo
Tradução de Antonio Miranda



NÓMINA DE HUESOS


Se pedía a grandes voces:
—Que muestre las dos manos a la vez.
Y esto no fue posible.
—Que, mientras llora, le tomen la medida de sus pasos.
Y esto no fue posible.
—Que piense un pensamiento idéntico, en el tiempo en que un cero permanece inútil.
Y esto no fue posible.
—Que haga una locura.
Y esto no fue posible.
—Que entre él y otro hombre semejante a él, se interponga una muchedumbre de hombres como él.
Y esto no fue posible.
—Que le comparen consigo mismo.
Y esto no fue posible.
—Que le llamen, en fin, por su nombre.
Y esto no fue posible.

domingo, 11 de julho de 2010

Borra / Heces

Borra


Esta tarde chove como nunca; e não
tenho ganas de viver, coração.

Esta tarde é doce. Por que não há de ser?
Veste graça e pena; veste de mulher.

Esta tarde em Lima chove. E lembro
as cavernas cruéis de minha ingratidão: 
meu bloco de gelo sobre sua amapola,
mais forte que seu “Não sejas assim!”

Minhas violentas flores negras; e a bárbara
e enorme pedrada; e o trecho glacial.
E porá o silêncio de sua dignidade
com óleos ardentes o ponto final.

Por isso esta tarde, como nunca, vou
com este mocho, com este coração.

E outras passam; e vendo-me tão triste,
tomam um pouquinho de ti
na abrupta ruga de minha profunda dor.

Esta tarde chove, chove muito. E não
tenho ganas de viver, coração!

César Vallejo
Tradução de Antonio Cicero

Heces


Esta tarde llueve, como nunca; y no 
tengo ganas de vivir, corazón. 

Esta tarde es dulce. Por qué no ha de ser? 
Viste gracia y pena; viste de mujer. 

Esta tarde en Lima llueve. Y yo recuerdo 
las cavernas crueles de mi ingratitud; 
mi bloque de hielo sobre su amapola, 
más fuerte que su "No seas así!" 

Mis violentas flores negras; y la bárbara 
y enorme pedrada; y el trecho glacial. 
Y pondrá el silencio de su dignidad 
con óleos quemantes el punto final. 

Por eso esta tarde, como nunca, voy 
con este búho, con este corazón. 

Y otras pasan; y viéndome tan triste, 
toman un poquito de ti 
en la abrupta arruga de mi hondo dolor. 

Esta tarde llueve, llueve mucho. ¡Y no 
tengo ganas de vivir, corazón!




VALLEJO, César. Obra poética. Edición crítica. Américo Ferrari, coordinador. Madrid; París; México; Buenos Aires; São Paulo; Rio de Janeiro; Lima: ALLCA XX, 1996.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pedra negra sobre uma pedra branca

Morrerei em Paris com aguaceiros,
num dia do qual já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris – daqui não saio –
numa quinta-feira, como hoje, de outono.

Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hoje
voltei, com todo o meu caminho, a ver-me só.

Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte

com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...

César Vallejo 
(Tradução de José Bento)

Piedra negra sobre una piedra blanca


Me moriré en París con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en París —y no me corro—
tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.


Jueves será, porque hoy, jueves, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi camino, a verme solo.


César Vallejo ha muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro


también con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminos...

De:
VALLEJO, César. “Poemas póstumos I”. In: Obra poética. Org. p. Américo Ferrari. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Rio de Janeiro; Lima: AllcaXX, 1996;

e:

VALLEJO, César. Antologia poética. Tradução de José Bento. Lisboa: Relógio D’Água, 1992.