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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E o teu vestido é branco

 Tens a cabeça baixa e me olhas:

e o teu vestido é branco,

e um seio aflora de entre as rendas

soltas do teu ombro esquerdo.


A luz me supera; treme,

e te toca os braços nus.


Revejo-te. Tinhas

palavras poucas e breves,

que punham alma

no peso de uma vida

que sabia a circo.


Profunda era a estrada

por onde o vento descia

certas noites de inverno,

e nos despertava estranhos


Salvatore Quasimodo

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


Piegato hai il capo e mi guardi;

e la tua veste è bianca,

e un seno affiora dalla trina

sciolta sull’omero sinistro.


Mi supera la luce; trema,

e tocca le tue braccia nude.Ti rivedo. Parole

avevi chiuse e rapide,

che mettevano cuore

nel peso d’una vita

che sapeva di circo.Profonda la strada

su cui scendeva il vento

certe notti di marzo,

e ci svegliava ignoti

come la prima volta.


Salvatore Quasimodo

domingo, 25 de agosto de 2013

Já está conosco a chuva

Já está conosco a chuva,
sacode o ar silencioso.
As andorinhas riscam as águas paradas
junto às lagoas lombardas,
voam como gaivotas catando peixes;
o feno cheira além do espaço das hortas.

Ainda um ano queimado,
sem um lamento, sem um grito
que inesperadamente vença um dia.


Già la pioggia è con noi,
scuote l’aria silenziosa.
Le rondini sfiorano le acque spente
presso i laghetti lombardi,
volano come gabbiani sui piccoli pesci;
il fieno odora oltre i recinti degli orti.

Ancora un anno è bruciato,
senza un lamento, senza un grido
levato a vincere d’improvviso un giorno.

QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Edição bilingue. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

"Pena de coisas que nem sei" / "Dolore di cose che ignoro"


 Pena de coisas que nem sei
 
Densa de brancas e de negras raízes
cheira a fermento e a vermes
a terra talhada d´água.

Pena de coisas que nem sei
em mim rebenta: não basta uma morte
se, escuta, mais vezes me pesa
no coração, com sua relva, um pedaço de terra.


Salvatore Quasimodo
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


Dolore di cose che ignoro

Fitta di bianche e di nere radici
di lievito odora e lombrichi;
tagliata dall’acque la terra.

Dolore di cose che ignoro
mi nasce: non basta una morte
se ecco più volte mi pesa
con l’erba, sul cuore, una zolla.

Salvatore Quasimodo



QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Esta noite


Esta noite
Versa, 22 de maio de 1916

Balaustrada de brisa
para apoiar nesta noite
minha melancolia

Giuseppe Ungaretti
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti



Stasera
Versa il 22 maggio 1916

Balaustrata di brezza
per appoggiare stasera
la mia malinconia


Giuseppe Ungaretti



UNGARETTI, Giuseppe. A alegria. Edição bilingue. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Talvez uma manhã andando num ar de vidro


Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.

Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde ~ e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.

Eugenio Montale

(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)

Forse un mattino andando in un’aria di vetro,
arida, rivolgendomi, vedrò compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s’uno schermo, s’accamperanno di gitto
Alberi case colli per l’inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n’andrò zitto
Tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.

Eugenio Montale