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quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A Morte virá e Terá os Teus Olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês cada manhã
quando, sob ti só, pendes
no espelho. Oh, que esperança,
nesse dia saberemos, também nós,
que és a vida e és o nada.
A morte tem um olhar para todos.
A morte virá e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
ressurgir uma face morta,
como ouvir os lábios fechados.
Desceremos mudos ao abismo.
Cesare Pavese
Tradução de José Carlos Brandão
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi-
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Così li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.
domingo, 25 de agosto de 2013
Já está conosco a chuva
sacode o ar silencioso.
As andorinhas riscam as águas paradas
junto às lagoas lombardas,
voam como gaivotas catando peixes;
o feno cheira além do espaço das hortas.
Ainda um ano queimado,
sem um lamento, sem um grito
que inesperadamente vença um dia.
Già la pioggia è con noi,
scuote l’aria silenziosa.
Le rondini sfiorano le acque spente
presso i laghetti lombardi,
volano come gabbiani sui piccoli pesci;
il fieno odora oltre i recinti degli orti.
Ancora un anno è bruciato,
senza un lamento, senza un grido
levato a vincere d’improvviso un giorno.
QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Edição bilingue. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
"Pena de coisas que nem sei" / "Dolore di cose che ignoro"
Pena de coisas que nem sei
Densa de brancas e de negras raízes
cheira a fermento e a vermes
a terra talhada d´água.
Pena de coisas que nem sei
em mim rebenta: não basta uma morte
se, escuta, mais vezes me pesa
no coração, com sua relva, um pedaço de terra.
Salvatore Quasimodo
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
Dolore di cose che ignoro
Fitta di bianche e di nere radici
di lievito odora e lombrichi;
tagliata dall’acque la terra.
Dolore di cose che ignoro
mi nasce: non basta una morte
se ecco più volte mi pesa
con l’erba, sul cuore, una zolla.
Salvatore Quasimodo
QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Esta noite
Esta noite
Versa, 22 de maio de 1916
Balaustrada de brisa
para apoiar nesta noite
minha melancolia
Giuseppe Ungaretti
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti
Stasera
Versa il 22 maggio 1916
Balaustrata di brezza
per appoggiare stasera
la mia malinconia
Giuseppe Ungaretti
UNGARETTI, Giuseppe. A alegria. Edição bilingue. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003
terça-feira, 2 de julho de 2013
A alma minha gentil que agora parte
Tão cedo deste mundo à outra vida,
Terá certo no céu grata acolhida,
Indo habitar sua mais beata parte.
Ficando entre o terceiro lume e Marte,
Será a vista do sol escurecida,
Virá depois, muita alma ao céu subida,
Vê-la – portento de natural e arte.
E se pousasse entre Mercúrio e Luz,
Brilhara mais do que eles nossa bela,
Como só se espalhara a fama sua.
A Marte certo não chegara ela.
Mas se mais alto o seu vulto flutua,
Vencera Jove e qualquer outra estrela.
Petrarca
Tradução de Jamir Almansur Haddad
Questa anima gentil che si diparte,
anzi tempo chiamata a l’altra vita,
se lassuso è quanto esser dê gradita,
terrà del ciel la piú beata parte.
S’ella riman fra ’l terzo lume et Marte,5
fia la vista del sole scolorita,
poi ch’a mirar sua bellezza infinita
l’anime degne intorno a lei fien sparte.
Se si posasse sotto al quarto nido,
ciascuna de le tre saria men bella,10
et essa sola avria la fama e ’l grido;
nel quinto giro non habitrebbe ella;
ma se vola piú alto, assai mi fido
che con Giove sia vinta ogni altra stella.
Petrarca
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Talvez uma manhã andando num ar de vidro
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde ~ e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
Eugenio Montale
(tradução: Geraldo H. Cavalcanti)
Forse un mattino andando in un’aria di vetro,
arida, rivolgendomi, vedrò compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.
Poi come s’uno schermo, s’accamperanno di gitto
Alberi case colli per l’inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n’andrò zitto
Tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.
Eugenio Montale
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Minha casa
Depois de tanto tempo
surpresa
dum amor
Achava que o havia espalhado
pelo mundo
Giuseppe Ungaretti
Tradução de Sérgio Wax
Casa mia
Sorpresa
dopo tanto
d'un amore
Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo
UNGARETTI, Giuseppe. A alegria / L'allegria. Edição bilingue. Tradução de Sérgio Wax. Belém: CEJUP, 1992.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
O infinito de Leopardi
Erma, e esta sebe, que de tanta parte
Do último horizonte, o olhar exclui.
Mas sentado a mirar, intermináveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e uma calma profundíssima
Eu crio em pensamentos, onde por pouco
Não treme o coração. E como o vento
Ouço fremir entre essas folhas, eu
O infinito silêncio àquela voz
Vou comparando, e vêm-me a eternidade
E as mortas estações, e esta, presente
E viva, e o seu ruído. Em meio a essa
Imensidão meu pensamento imerge
E é doce o naufragar-me nesse mar.
Giacomo Leopardi
(tradução de Vinicius de Moares)
domingo, 30 de agosto de 2009
Triunfo da morte

Triunfo da morte Francesco Petrarca
(tradução de Luís Vaz de Camões)
Aquela bela dama e gloriosa,
Que hoje é nu ’spírito e pouca terra,
E foi alta coluna e valorosa;
Tornava com grande honra de sua guerra,
Deixando já vencido o grande inimigo,
Que com seu doce fogo o mundo aterra.
Não com mais armas que respeito altivo,
Honestidade em rosto e pensamento,
Coração casto e de virtude amigo.
Grande espanto era ver tal vencimento,
As armas d’amor rotas e desfeitas,
E os vencidos dele em mor tormento.
A bela dama e as outras eleitas
Se vinham gloriando da vitória,
Em bela esquadra juntas e restreitas.
Poucas eram, que rara é vera glória,
Mas dinas, da primeira à derradeira,
De claríssimo poema e de história.
Traziam, por insígnia, na bandeira
Em campo verde um branco armelino
D’ouro fino, e topazes a coleira.
Não humano, certamente, mas divino
Era o seu doce andar, e o que diziam:
Ditosa é a que nasce a tal destino.
Estrelas e sol em meio pareciam,
Em cujo resplendor o seu consiste;
De rosas coroadas todas iam.
Como nobre coração que honra aquiste,
Cada uma em sua virtude se alegra,
Quando outra insígnia vi escura e triste,
E uma fera dona em veste negra.
Com tal furor, qual eu não sei se atrás,
No tempo dos gigantes fosse em Flegra.
Chamou, e disse: donzela, tu que vás
De beleza e virtude alterada,
De tua vida o termo não saberás?
Eu sou a importuna acelerada,
Chamada de vós, gente surda e cega,
A quem morte vem antecipada.
Eu sou a que matei a gente grega
E troiana, e no último os romãos,
Que todos minha foice corta e cega.
Não deixo povos gentios nem cristãos,
Chego quando por mim menos se espera,
Atalho mil pensamentos, todos vãos.
E a vós, quando mais ledo o viver era,
Endereço meu curso, antes que a fortuna
Misture em vossa doce a sua fera.
Já nestas tu não tens razão alguma,
E em mim pouca, que em minha morte,
Respondeu a que no mundo foi uma,
Outrem sei a quem mais dura é a sorte,
Cuja vida do meu viver depende,
Que o morrer, quanto a mim, será deporte.
Qual é quem grave coisa e nova entende,
Ou vê o que no princípio não lembrou,
E ora se maravilha, ora resprende.
Tal foi a cruel; e depois que cuidou
Um pouco em si, disse: bem conheço eu
Se dá o meu golpe em cheio ou se errou.
Depois, com melhor semblante e menos seu
Disse: tu que a fremosa esquadra guias,
Inda não experimentaste o tosco meu.
Mas, se de meu conselho algo te fias,
Que forçar te posso: por melhor se tem
Fugir velhice e os seus tristes dias.
Eu sou disposta a te fazer um bem
Que não costumo; e é que tua alma vá
Sem aquele medo e dor que a morte tem.
Como apraz ao Senhor, que em cima está,
E rege o céu, e a terra, e o abisso,
Farás de mim o que dos outros será.
Em respondendo assi, eis d’improviso
De mortos se cobriu toda a campanha,
De multidão que excede o humano siso.
A índia, o Cataio, África e Espanha,
Tudo estava coberto até os extremos
Daquela infinita turba manha.
Entre eles, os que por felices temos,
Pontífices, e reis, e imperadores,
Que ora são nus e pobres, como vemos.
Que foi de suas riquezas e primores?
Dos ceptros e vestiduras reais?
Das mitras e das purpúreas cores?
Triste o que a esperança põe em bens mortais!
Mas quem a não põe? Que se depois se achar
Enganado, o remédio é por demais.
Ó cegos que aproveita o afadigar?
Que logo vos tornais à madre antiga,
E muito pouco o vosso nome há-de durar.
E se alguma há, entre vós, útil fadiga,
Ou se são todas puras vaidades,
Qual mais souber de vós esse mo diga.
Que val ganhardes reinos e cidades,
Fazerdes tributárias muitas gentes,
Forçardes nações livres e vontades?
Que achais nessas vitórias eminentes?
Trocar sangue por terra e por tesouro?
Melhor sabe na paz aos prudentes
O pão e água no pau, que a vós no ouro.
Mas por não prosseguir tão longo tema
Acabarei, e a meu lavor me torno.
E digo que já era na hora extrema
Aquela breve vida gloriosa,
No passo em que nenhum há que não trema.
Com ela estava outra valerosa
Companhia de donas, que esperava
Saber se alguma morte há piedosa.
Atentas eram quantas ali estavam
A contemplar o fim que ela fazia,
Que tal convém fazer aos que acabam.
Estando assi a nobre companhia,
Da loura cabeça, morte lhe cortou,
A trança que seus cabelos tecia.
Assi do mundo a mais bela flor levou,
Não por ódio, mas por mais cedo mostrar
Que para reinar na glória se criou.
Tristes prantos e querelas ouvi dar,
Sendo os seus belos olhos já enxutos,
De cujo nome me soía abrasar.
Entre gritos e lágrimas e lutos
Estava ela só leda e calada,
De seu casto viver colhendo os frutos.
Vai-te em paz, alma bem-aventurada,
Diziam, e era assi; mas nada val
Contra a morte cruel e acelerada.
Que será de nós? Pois esta que era tal
Ardeu em tão breve tempo e acabou
falsa e cega esperança humanall
Se de lágrimas a terra se banhou,
Com piedade daquela alma gentil,
Sabe-o quem o viu e experimentou.
Na hora prima do dia sexto d’Abril,
Em que fui preso a morte me desatou;
Que assi muda fortuna o seu estilo vil.
Quem de dura servidão mais se queixou,
Ou da morte, como eu da liberdade
E da vida, que sem ela me ficou?
Devido era ao mundo e à idade
Não preceder a da véspera ao da prima,
Nem tirar-se-lhe a ele a dignidade.
Qual fosse a sua dor que não se estima
Ousado só a cuidá-lo eu não seria,
Quanto mais a escrevê-lo em prosa ou rima.
Acabada é a virtude e a cortesia
Se ouvia lamentar junto do leito
Pelas donas e amigas que ali havia.
Quem verá mais em dama auto perfeito,
Quem ouvirá seu falar de saber cheio,
E a voz de tão suave deleito?
O espírito, por deixar o doce seio
Com todas as virtudes, anojado,
Fazia em toda a parte o ar sereio.
Nenhum dos adversários foi ousado
De aparecer ali com vista escura,
Até que a morte o assalto houve acabado.
Deposto já o medo e a tristura,
Ao belo rosto cada uma olhava,
Por desesperação feita segura.
Não como chama, que por força acaba,
Mas que por si se gasta e consume,
Se foi dentre nós a que o mundo ornava.
A modo de um suave e claro lume,
A que falta sustância e nutrimento,
a Que no fim tem usado costume;
Mais alva que a neve que sem vento
Em gracioso campo se vê cair,
Estava ela no fim do passamento.
Quase em belos olhos um doce dormir,
Sendo o espírito já partido dela!
Parecia o seu morrer o ressurgir,
E o seu lindo rosto morte bela!
Quella leggiadra e glorïosa donna,
ch'è oggi ignudo spirto e poca terra
e fu già di valor alta colonna,
tornava con onor da la sua guerra,
allegra, avendo vinto il gran nemico,
che con suo' ingegni tutto 'l mondo atterra,
non con altr'arme che col cor pudico
e d'un bel viso e de' pensieri schivi,
d'un parlar saggio e d'onestate amico.
Era miracol novo a veder ivi
rotte l'arme d'Amore, arco e saette,
e tal morti da lui, tal presi e vivi.
La bella donna e le compagne elette,
tornando da la nobile vittoria,
in un bel drappelletto ivan ristrette.
Poche eran, perché rara è vera gloria;
ma ciascuna per sé parea ben degna
di poema chiarissimo e d'istoria.
Era la lor vittorïosa insegna
in campo verde un candido ermellino,
ch'oro fino e topazi al collo tegna.
Non uman veramente, ma divino
lor andar era e lor sante parole:
beato s'è qual nasce a tal destino.
Stelle chiare pareano; in mezzo, un sole
che tutte ornava e non togliea lor vista;
di rose incoronate e di viole.
E come gentil cor onore acquista,
così venia quella brigata allegra,
quando vidi un'insegna oscura e trista:
et una donna involta in veste negra,
con un furor qual io non so se mai
al tempo de' giganti fusse a Flegra,
si mosse e disse: - O tu, donna, che vai
di gioventute e di bellezze altera,
e di tua vita il termine non sai,
io son colei che sì importuna e fera
chiamata son da voi, e sorda e cieca
gente a cui si fa notte inanzi sera.
Io ho condotto al fin la gente greca
e la troiana, a l'ultimo i Romani,
con la mia spada la qual punge e seca,
e popoli altri barbareschi e strani;
e giugnendo quand'altri non m'aspetta,
ho interrotti mille penser vani.
Or a voi, quando il viver più diletta,
drizzo il mio corso inanzi che Fortuna
nel vostro dolce qualche amaro metta. -
- In costor non hai tu ragione alcuna,
ed in me poca; solo in questa spoglia
(rispose quella che fu nel mondo una).
Altri so che n'avrà più di me doglia,
la cui salute dal mio viver pende;
a me fia grazia che di qui mi scioglia. -
Qual è chi 'n cosa nova gli occhi intende,
e vede ond'al principio non s'accorse,
di ch'or si meraviglia e si riprende,
tal si fe' quella fera, e poi che 'n forse
fu stata un poco: - Ben le riconosco, -
disse - e so quando 'l mio dente le morse. -
Poi col ciglio men torbido e men fosco
disse: - Tu che la bella schiera guidi
pur non sentisti mai del mio tosco.
Se del consiglio mio punto ti fidi,
ché sforzar posso, egli è pur il migliore
fuggir vecchiezza e' suoi molti fastidi.
I' son disposta a farti un tal onore
qual altrui far non soglio, e che tu passi
senza paura e senz'alcun dolore. -
- Come piace al Signor che 'n cielo stassi
et indi regge e tempra l'universo,
farai di me quel che degli altri fassi. -
Così rispose: ed ecco da traverso
piena di morti tutta la campagna,
che comprender nol pò prosa né verso;
da India, dal Cataio, Marrocco e Spagna
el mezzo avea già pieno e le pendici
per molti tempi quella turba magna.
Ivi eran quei che fur detti felici,
pontefici, regnanti, imperadori;
or sono ignudi, miseri e mendici.
U' sono or le ricchezze? u' son gli onori
e le gemme e gli scettri e le corone
e le mitre e i purpurei colori?
Miser chi speme in cosa mortal pone
(ma chi non ve la pone?), e se si trova
a la fine ingannato è ben ragione.
O ciechi, el tanto affaticar che giova?
Tutti tornate a la gran madre antica,
e 'l vostro nome a pena si ritrova.
Pur de le mill' è un'utile fatica,
che non sian tutte vanità palesi?
Chi intende a' vostri studii sì mel dica.
Che vale a soggiogar gli altrui paesi
e tributarie far le genti strane
cogli animi al suo danno sempre accesi?
Dopo l'imprese perigliose e vane,
e col sangue acquistar terre e tesoro,
vie più dolce si trova l'acqua e 'l pane,
e 'l legno e 'l vetro che le gemme e l'oro.
Ma per non seguir più sì lungo tema,
tempo è ch'io torni al mio primo lavoro.
I' dico che giunta era l'ora estrema
di quella breve vita glorïosa,
e 'l dubbio passo di che 'l mondo trema,
et a vederla un'altra valorosa
schiera di donne non dal corpo sciolta,
per saper s'esser pò Morte pietosa.
Quella bella compagna era ivi accolta
pure a vedere e contemplare il fine
che far convensi, e non più d'una volta:
tutte sue amiche e tutte eran vicine.
Allor di quella bionda testa svelse
Morte co la sua mano un aureo crine:
così del mondo il più bel fiore scelse,
non già per odio, ma per dimostrarsi
più chiaramente ne le cose eccelse.
Quanti lamenti lagrimosi sparsi
fur ivi, essendo que' belli occhi asciutti
per ch'io lunga stagion cantai et arsi!
E fra tanti sospiri e tanti lutti
tacita e sola lieta si sedea,
del suo ben viver già cogliendo i frutti.
- Vattene in pace, o vera mortal dea! -
diceano; e tal fu ben, ma non le valse
contra la Morte in sua ragion sì rea.
Che fia de l'altre, se questa arse et alse
in poche notti e sì cangiò più volte?
O umane speranze cieche e false!
Se la terra bagnar lagrime molte
per la pietà di quella alma gentile,
chi 'l vide il sa; tu 'l pensa che l'ascolte.
L'ora prima era, il dì sesto d'aprile,
che già mi strinse, et or, lasso, mi sciolse:
come Fortuna va cangiando stile!
Nessun di servitù giammai si dolse,
né di morte, quant'io di libertate
e de la vita ch'altri non mi tolse.
Debito al mondo e debito a l'etate,
cacciar me innanzi ch'ero giunto in prima,
né a lui torre ancor sua dignitate.
Or qual fusse il dolor qui non si stima,
ch'a pena oso pensarne, non ch'io sia
ardito di parlarne in versi o 'n rima.
- Virtù more, bellezza e leggiadria! -
le belle donne intorno al casto letto
triste diceano - Omai di noi che fia?
chi vedrà mai in donna atto perfetto?
chi udirà il parlar di saver pieno
e 'l canto pien d'angelico diletto? -
Lo spirto, per partir di quel bel seno,
con tutte sue virtuti, in sé romito,
fatto avea in quella parte il ciel sereno.
Nessun degli avversari fu sì ardito
ch'apparisse già mai con vista oscura
fin che Morte il suo assalto ebbe fornito.
Poi che deposto il pianto e la paura
pur al bel volto era ciascuna intenta,
per desperazïon fatta sicura,
non come fiamma che per forza è spenta,
ma che per sé medesma si consume,
se n'andò in pace l'anima contenta,
a guisa d'un soave e chiaro lume
cui nutrimento a poco a poco manca,
tenendo al fine il suo caro costume.
Pallida no, ma più che neve bianca
che senza venti in un bel colle fiocchi,
parea posar come persona stanca.
Quasi un dolce dormir ne' suo' belli occhi,
sendo lo spirto già da lei diviso,
era quel che morir chiaman gli sciocchi:
Morte bella parea nel suo bel viso.
Francesco Petrarca
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Canto III - Divina Comédia - Dante
vai-se por mim à sempiterna dor,
vai-se por entre a perdida gente.
Moveu-se justiça o meu alto feitor,
fez-me a divina Potestade, mais
o supremo Saber e o primo Amor.
Antes de mim não foi criado mais
nada senão eterno, e eterna eu duro.
Deixai toda esperança, ó vós que entrais.
(tradução de Italo Eugenio Mauro)
Per me si va ne la città dolente,
per me si va ne l'etterno dolore,
per me si va tra la perduta gente.
Giustizia mosse il mio alto fattore;
fecemi la divina podestate,
la somma sapïenza e 'l primo amore.
Dinanzi a me non fuor cose create
se non etterne, e io etterna duro.
Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate.
Dante Alighieri