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sábado, 8 de junho de 2013

Se é doce

Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados,

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados.
Morte, morte de amor, melhor que a vida.

Bocage




sexta-feira, 7 de junho de 2013

Poemeto Erótico

Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...

Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...

Manuel Bandeira

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A cópula

Depois de lhe beijar meticulosamente
o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce,
o moço exibe à moça a bagagem que trouxe:
culhões e membro, um membro enorme e tungescente.

Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinente,
Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se.
Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se
E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente

Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!"
Grita para o rapaz que aceso como um diabo,
arde em cio e tesão na amorosa gangorra

E titilando-a nos mamilos e no rabo
(que depois irá ter sua ração de porra),
lhe enfia cona a dentro o mangalho até o cabo.

Manuel Bandeira

terça-feira, 4 de junho de 2013

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Música

mamilos ilhas
do mar elástico
flores
na pele do peito
negro loiro
perfume volume
clítoris
da face do êxtase
vento oscilando
cúpula no mastro
glande
rubra de neve
na pele do deserto
areia movediça
cetim
de dedos cactus
fundo e claro
obscuro fluxo
canto
do olho aberto
figura esguia
peixe na água
lava
por fenda fina
a saliva sabe
do sol o toque
beijo
eixo na boca
vôo no ritmo
das asas duplas
cópula
única é a ave
volume ocupando
espaço da mão
flecha
redonda logo
olhos abertos
na cor da noite
voláteis
cristais de luz
na onda anda
um outro lugar
vulva
volume vago
o ambíguo dizer
pedra de toque
pénis
no calor dos olhos
carícia outra
leve fluir
língua
toque ácido
total orgasmo
nulo de nada
luz
sobre a iluminação

E.M. de Melo e Castro

domingo, 29 de novembro de 2009

MADEMOISELLE FURTA-COR

Por esta fresta te espreito
Por esta fenda te desvendo
Por esta fresta
                        cravo
sonda contra esponja
e babo
                         e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o teu corpo se entreabre:
porta e perno, caixa e coxa

Por esta fenda
                                                tenda
de pele que se franze
e rasga
                       eu me adentro
feito de espera e de esperma
e espremo —te aporto— e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por esta fenda me espreito
Por esta fenda me desvendo.


Armando Freitas Filho


De A mão livre (1979)