sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os fatos



George Grosz

Os fatos

São fatais para o idiota.

O que importa

É o que dizem outros idiotas.


Criam um mundo paralelo:

No furo da agulha passa um fuzil.

Criam seu evangelho,

Criam um Deus e uma Pátria que os pariu.

https://alexsartorelli.blogspot.com/


terça-feira, 5 de julho de 2022

O lírio prateado


As noites ficaram frias de novo, como as noites


de começo de primavera, e quietas de novo. Será


que a conversa te incomoda? Estamos


sozinhos agora; não temos razão para silêncio.


 


Vês, sobre o jardim — a lua cheia nasce.


Não verei a próxima lua cheia.


 


Na primavera, quando a lua nascia, significava


que o tempo era infinito. Anêmonas


abriam e fechavam, as sementes


em cachos caíam dos bordos em pálidas lufadas.


Branco sobre branco, a lua nascia sobre o vidoeiro.


E no arco em que a árvore se divide,


folhas dos primeiros narcisos, ao luar


prata-verde-claras.


 


Juntos, chegamos perto demais do fim para agora


temermos o fim. Nessas noites, não estou nem mesmo certa


de que sei o que significa o fim. E tu, que estiveste


com um homem —




depois dos primeiros gritos,


não faz a alegria, como o medo, barulho algum?


Louise Glück

(Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins)




The Silver Lily

BY LOUISE GLÜCK


The nights have grown cool again, like the nights

of early spring, and quiet again. Will

speech disturb you? We're

alone now; we have no reason for silence.


Can you see, over the garden—the full moon rises.

I won't see the next full moon.


In spring, when the moon rose, it meant

time was endless. Snowdrops

opened and closed, the clustered

seeds of the maples fell in pale drifts.

White over white, the moon rose over the birch tree.

And in the crook, where the tree divides,

leaves of the first daffodils, in moonlight

soft greenish-silver.


We have come too far together toward the end now

to fear the end. These nights, I am no longer even certain

I know what the end means. And you, who've been with a man—


after the first cries,

doesn't joy, like fear, make no sound?

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Eu amei esses lugares

Eu amei esses lugares

onde o sol

secretamente se deixava acariciar.



Onde passaram lábios,

onde as mãos correram inocentes,

o silêncio queima.



Amei como quem rompe a pedra,

ou se perde

na vagarosa floração do ar.





ANDRADE, Eugénio de. "Eu amei esses lugares". In:_____ "Matéria solar". In: SARAIVA, Arnaldo (org.). Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

E o teu vestido é branco

 Tens a cabeça baixa e me olhas:

e o teu vestido é branco,

e um seio aflora de entre as rendas

soltas do teu ombro esquerdo.


A luz me supera; treme,

e te toca os braços nus.


Revejo-te. Tinhas

palavras poucas e breves,

que punham alma

no peso de uma vida

que sabia a circo.


Profunda era a estrada

por onde o vento descia

certas noites de inverno,

e nos despertava estranhos


Salvatore Quasimodo

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti


Piegato hai il capo e mi guardi;

e la tua veste è bianca,

e un seno affiora dalla trina

sciolta sull’omero sinistro.


Mi supera la luce; trema,

e tocca le tue braccia nude.Ti rivedo. Parole

avevi chiuse e rapide,

che mettevano cuore

nel peso d’una vita

che sapeva di circo.Profonda la strada

su cui scendeva il vento

certe notti di marzo,

e ci svegliava ignoti

come la prima volta.


Salvatore Quasimodo

segunda-feira, 18 de maio de 2020

ÁGUA ÁGUA 

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

Olga Savary

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A uma criança que dança no vento



A uma criança que dança no vento

Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás de temer
O terrível clamor dos ventos?



To a child dancing in the wind

Dance there upon the shore;
What need have you to care
For wind or water’s roar?
And tumble out your hair
That the salt drops have wet;         
Being young you have not known
The fool’s triumph, nor yet
Love lost as soon as won,
Nor the best labourer dead
And all the sheaves to bind.  
What need have you to dread
The monstrous crying of wind?




YEATS, W.B. "To a child dancing in the wind" / "A uma criança que dança no vento". In:_____. Uma antologia. Seleção e trad. de José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

NÃO HÁ VIDA NEM MORTE

Não há Vida nem Morte
Apenas atividade
E na plenitude
Não há debilidade.
Não há Amor nem Desejo
Apenas vontade
Quem queria possuir
Tornou-se nulidade.
Não há Primeiro nem Último
Apenas iguadade
E quem iria dominar
Juntou-se à comunidade.
Não há Espaço nem Tempo
Apenas intensidade,
E as coisas dóceis
Não tem grandiosidade.

Mina Loy
Tradução de Vanderley Mendonça

There is no Life or Death
Only activity
And in the absolute
Is no declivity.
There is no Love or Lust
Only propensity
Who would possess
Is a nonentity.
There is no First or Last
Only equality
And who would rule
Joins the majority.
There is no Space or Time
Only intensity,
And tame things
Have no immensity.


Mina Loy