terça-feira, 20 de novembro de 2018

NÃO HÁ VIDA NEM MORTE

Não há Vida nem Morte
Apenas atividade
E na plenitude
Não há debilidade.
Não há Amor nem Desejo
Apenas vontade
Quem queria possuir
Tornou-se nulidade.
Não há Primeiro nem Último
Apenas iguadade
E quem iria dominar
Juntou-se à comunidade.
Não há Espaço nem Tempo
Apenas intensidade,
E as coisas dóceis
Não tem grandiosidade.

Mina Loy
Tradução de Vanderley Mendonça

There is no Life or Death
Only activity
And in the absolute
Is no declivity.
There is no Love or Lust
Only propensity
Who would possess
Is a nonentity.
There is no First or Last
Only equality
And who would rule
Joins the majority.
There is no Space or Time
Only intensity,
And tame things
Have no immensity.


Mina Loy

domingo, 20 de maio de 2018

Tanto canta em mim o lobo em meu sangue

Tanto canta em mim o lobo em meu sangue,
que então aqueço-me
em uma outra língua.


Mariella Mehr
Tradução de Alex Sartorelli



Oft singt mir der Wolf im Blut,
dann wird mir warm
in einer fremden Sprache.


Mariella Mehr


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Presídio

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?
   
E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...
 
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memóra o fugidio
 
vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!,

David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 2 de junho de 2017

O POETA EM LISBOA

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


António José Forte

terça-feira, 18 de abril de 2017

SENSAÇÃO

Vejo cantar o pássaro
toco este canto com meus nervos
seu gosto de mel. Sua forma

gerando-se da ave
como aroma.
Vejo cantar o pássaro e através
da percepção mais densa
ouço abrir-se a distância
como rosa
em silêncio.

Orides Fontella

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ELEGIA DE PÃ NA ETAR

Para o Osvaldo Manuel Silvestre

Falha o sopro na flauta de cana ...
e rebate os cascos fendidos
nos remansos da lagoa anaeróbica,
cujos lodos bacterianos, degradados,
o ar incensam de gás sulfídrico,
pondo em fuga rãs saltadoras,
com estranhas mutações
e pentâmetras pernas.

Dança depois na grade decantadora,
cadafalso que se abre sob a cascata
de águas residuais
e as deixa a estrebuchar no leito espúmeo
de óleos, adubos, solventes
e humanais detritos
por algas e micróbios digeridos com fartura.

São os seus últimos dias.
Podeis vê-lo sem rumo e sem tino
a eludir o sol com o prémio da cabeça.

À noite adormece na barraca mais esconsa,
erguida com despojos de mil vidas
sentenciadas à felicidade
e de carreiras cevadas no triunfo e na dominação.

São os seus últimos dias:
podeis vê-lo recostado no tanque de sedimentação
a sonhar com o espondeu das águas,
o troqueu dos seixos, o dáctilo
das canas, o anapesto das cigarras.

Dá medo vê-lo assim tão alheado, tão distraído,
tão embestado na sua insofrível utopia.
Não tarda faz-se roubar e espancar por algum agarrado,
fica para aí caído numa moita. Um dia destes matam-no:
surpreendido entre as sebes a colher as últimas amoras,
um só tiro bastará, ou nem tanto – uma paulada,
como nos coelhos se usava.

Um dia destes encontram-lhe o cadáver dançarino
metido no poço de algum prédio inacabado,
morto e remorto,
para que não volte cá o seu fantasma.

Porque os homens não se contentam com matar,
querem matar ainda os fantasmas do que matam.

Rui Lage, Estrada Nacional, INCM

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Moral da história

Deixamos passar o outono, o inverno,
a primavera, o verão,
e fazemos de conta que lhes sobrevivemos
como se tudo não passasse
de inofensiva e reversível
sucessão.

Passeamos de mãos dadas,
temos filhos e casamos,
pedimos a reforma,
partilhamos o gelado na praia
junto à rebentação,
apertamos o casaco na gola
quando as folhas se deitam,
pisamos papoilas em caminhos
de aldeias abandonadas,
olhamos a água no tanque
quando levamos o cão à rua
de madrugada,
e dizemos: é isto a vida, é isto
o real
(e assim nos enganamos)
como meninos
livres para brincar junto do poço
enquanto a mãe não está a olhar
ou fala ao telefone,
ou prepara o almoço.

Rui Lage


Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE, Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.