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quinta-feira, 11 de abril de 2013
Soneto 76
Soneto 76
Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia
Tão incapaz de produzir inventos
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas.
E assim vou refazendo o que foi feito,
Reinventando as palavras do poema.
Como o sol, novo e velho a cada dia,
O meu amor rediz o que dizia.
Sonnet 76
Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods, and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know sweet love I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.
SHAKESPEARE, William. "Sonnet 76". In: CARNEIRO, Geraldo (trad. e org.). O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
Marcadores:
Inglês,
Shakespeare,
Tradutor Geraldo Carneiro
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Parece que erraram a conta
Janeiro de 1963: faço 50 anos.
Não é
divertido. Para falar com franqueza, eu preferia (e obscuramente tenho vontade
de dizer: eu merecia) fazer quarenta
anos. Esta a idade que me apraz imaginar que possuo. Não tenho saudade de meus 30
anos, quero dizer _ não teria vontade de voltar a ser como eu era aos 30 anos _
e muito menos aos 20. Mas, 40 acho que faria uma boa conta.
Sei que não
adiante reclamar, mas acho que fui roubado. Contaram-me dez anos a mais. Naturalmente
somaram tudo, tudo, inclusive o tempo que passei, vamos dizer, perdendo tempo. Por
exemplo: andando atrás de mulher que não queria saber de mim. Isso não devia
valer. Que me marcassem agora 45 anos vá lá. Cinqüenta, francamente, acho um
pouco demais, e um pouco demasiado de repente. Parece que não há remédio senão
aceitar. Aceito resmungando, como quem paga, de má vontade, uma conta de bar
que está achando exagerada.
Cinqüenta anos...
Uma injustiça, sem dúvida alguma. Logo comigo, que tinha tanta vocação para ser
rapaz!
Sou, na
verdade, um velho rapaz, e faço meus 50 anos sem rir, sem chorar; sem chorar,
sem rir. Resmungando, é natural. O momento seria bom para uma pausa, um
balanço, um exame de consciência. Vou pensar nisso; mas agora não, ainda estou
meio chocado com essa brincadeira boba.
A verdade é
que a gente não envelhece por igual, como essas frutas dos pomares
bem-cuidados. A gente envelhece como goiaba da roça; uma parte está de vez,
outra já madura, um pedaço ainda está verde e já outro preto, bichado.
Essa
comparação não deve ser minha; acho que já li isso em alguma parte, talvez em Gilberto Amado ;
parece coisa dele.
Para
disfarçar, e como tinha de viajar, arranjei as coisas para passar o dia de meu
aniversário em viagem. Saí
cedo de Rabat em automóvel para pegar em Casablanca um avião que me levaria a
Lisboa, onde no dia seguinte embarcaria para o Rio. Mas o aeroporto de Lisboa
estava trancado por um nevoeiro, e como as notícias eram incertas passei o dia
entre o aeroporto, o hotel e a agência da companhia; acabei fazendo uma escala
absurda em Madri, que é mais longe do que Lisboa.
Essa confusão
aborrecida me deu a vaga impressão de estar entrando clandestinamente na minha
segunda metade de século. Metade, por sinal, bem menor que a primeira...
Só há um
consolo verdadeiro: a companhia. Fazendo 50 anos em 1963 eu me igualo, pelo
menos em idade, a duas das mais altas e puras instituições cariocas. Vinicius
de Moraes e o bondinho do Pão de Açúcar. O poeta faz 50 anos em 19 de outubro;
o bondinho fez agora mesmo, em janeiro, um pouco depois de mim.
Nesses 50
anos de funcionamento, esse bondinho teve raros acidentes, já deu muito susto e
já ameaçou se despencar no abismo, mas nunca matou ninguém. Como o Vinicius de
Moraes, cuja poesia também tantas vezes nos leva sobre a terra e o mar em visões
de beleza, entre nuvens e luas... Bons companheiros!
Mas eu
preferia fazer quarenta.
Rio
de Janeiro, 1963
Rubem Braga
“A traição das elegantes”
7ª edição
Record, 2008
Record, 2008
Marcadores:
crônica,
Português,
Rubem Braga
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
A Menina Silvana
Um camponês velho deu as informações ao sargento: Silvana Martinelli, 10 anos de idade.
A menina estava quase inteiramente nua, porque cinco ou seis estilhaços de uma granada alemã a haviam atingido em várias partes do corpo. Os médicos e os enfermeiros, acostumados a cuidar rudes corpos de homens, inclinavam-se sob a lâmpada para extrair os pedaços de aço que haviam dilacerado aquele corpo branco e delicado como um lírio - agora marcado de sangue. A cabeça de Silvana descansava de lado, entre cobertores. A explosão estúpida poupara aquela pequena cabeça castanha, aquele perfil suave e firme que Da Vinci amaria desenhar. Lábios cerrados, sem uma palavra ou um gemido, ela apenas tremia um pouco - quando lhe tocavam num ferimento contraía quase imperceptivelmente os músculos da face. Mas tinha os olhos abertos - e quando sentiu a minha sombra ergueu-os um pouco. Nos seus olhos eu não vi essa expressão de cachorro batido dos estropiados, nem essa luz de dor e raiva dos homens colhidos no calor do combate, nem essa impaciência dolorosa de tantos feridos, ou o desespero dos que acham que vão morrer. Ela me olhou quietamente. A dor contraía-lhe, num pequeno tremor, as pálpebras, como se a luz lhe ferisse um pouco os olhos. Ajeitei-lhe a manta sobre a cabeça, protegendo-a da luz, e ela voltou a me olhar daquele jeito quieto e firme de menina correta.
Deus, que está no céu - se é que, depois de tantos desgovernos cruéis e tanta criminosa desídia, ninguém o pôs para fora de lá, ou Vós mesmo, Senhor, não vos pejais de estar aí quando Vossos filhos andam neste inferno! - Deus sabe que tenho visto alguns sofrimentos de crianças e mulheres. A fome dessas meninas da Itália que mendigam na entrada dos acampamentos, a humilhação dessas mulheres que diante dos soldados trocam qualquer dignidade por um naco de chocolate - nem isso, nem o servilismo triste mais que tudo, dos homens que precisam levar pão à sua gente - nada pode estragar a minha confortável posição de correspondente. Vai-se tocando, vai-se a gente acostumando no ramerrão da guerra; é um ramerrão como qualquer outro: e tudo entra nesse ramerrão - a dor, a morte, o medo, o disco de “Lili Marlene” junto de uma lareira que estala, a lama, o vinho, a cama-rolo, a brutalidade, a ajuda, a ganância dos aproveitadores, o heroísmo, as cansadas pilhérias - mil coisas no acampamento e na frente, em sucessão monótona. Esse corneteiro que o frio da madrugada desafina não me estraga a lembrança de antigos quartéis de ilusões, com alvoradas de violino - Senhor, eu juro, sou uma criatura rica de felicidades meigas, sou muito rico, muito rico, ninguém nunca me amargará demais. E às vezes um homem recusa comover-se: meninas da Toscana, eu vi vossas irmãzinhas do Ceará, barrigudinhas, de olhos febris, desidratadas, pequenos trapos de poeira humana que o vento da seca ia a tocar pelas estradas. Sim, tenho visto alguma coisa e também há coisas que homens que viram me contam: a ruindade fria dos que exploram e oprimem e proíbem pensar, e proíbem comer, e até o sentimento mais puro torcem e estragam, as vaidades monstruosas que são massacres lentos e frios de outros seres - sim, por mais distraído que seja um repórter, ele sempre, em alguma parte em que anda, vê alguma coisa.
Muitas vezes não conta. Há 13 anos trabalho neste ramo - e muitas vezes não conto. Mas conto a história sem enredo dessa menina ferida. Não, sei que fim levou e se morreu ou está viva, mas vejo seu fino corpo branco e seus olhos esverdeados e quietos. Não me interessa que tenha sido inimigo o canhão que a feriu. Na guerra, de lado a lado, é impossível, até um certo ponto, evitar essas coisas. Mas penso nos homens que começaram esta guerra e nos que permitiram que eles começassem. Agora é tocar a guerra - e quem quer que possa fazer qualquer coisa para tocar a guerra mais depressa, para aumentar o número de bombas dos aviões e tiros das metralhadoras, para apressar a destruição, para aumentar aos montes a colheita de mortes - será um patife se não ajudar. É preciso acabar com isso, e isso só se acaba a ferro e fogo, com esforço e sacrifícios de todos, e quem pode mais deve fazer muito mais, e não cobrar o sacrifício do pobre e se enfeitar com as glórias fáceis. É preciso acabar com isso, e acabar com os homens que começaram isso e com tudo o que causa isso - o sistema idiota e bárbaro de vida social onde um grupo de privilegiados começa a matar quando não tem outro meio de roubar.
Pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (sem importância nenhuma no oceano de crueldades e injustiças), pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (mas ó hienas, ó porcos, de voracidade monstruosa, e vós também, águias pançudas e urubus, ó altos poderosos de conversa fria ou voz frenética, que coisa mais sagrada sois ou conheceis que essa quieta menina camponesa?), pelo corpo inocente, pelos olhos inocentes da menina Silvana (ó negociantes que roubais na carne, quanto valem esses pedaços estraçalhados?) - por esse pequeno ser simples, essa pequena coisa chamada uma pessoa humana, é preciso acabar com isso, é preciso acabar para sempre, de uma vez por todas.
Rubem Braga
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Rubem Braga
sábado, 12 de janeiro de 2013
E quando nós saímos era a Lua
E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído, o mar sereno
Azul e cinza azul anoitecendo
A tarde triste das amendoeiras.
Era o vento caído, o mar sereno
Azul e cinza azul anoitecendo
A tarde triste das amendoeiras.
E respiramos livres das ardências
Do sol que nos levara à sombra cauta,
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.
Do sol que nos levara à sombra cauta,
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.
Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.
– Se mágoa me ficou, na despedida,
Não fez mal que ficasse, nem doesse;
Era bem doce, perto das antigas.
Não fez mal que ficasse, nem doesse;
Era bem doce, perto das antigas.
Rubem Braga
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A arte do encontro,
Rubem Braga,
Soneto
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Pátria
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
segunda-feira, 9 de julho de 2012
In the middle of the road there was a stone
In the middle of the road there was a stone
there was a stone in the middle of the road
there was a stone
in the middle of the road there was a stone.
Never should I forget this event
in the life of my fatigued retinas.
Never should I forget that in the middle of the road
there was a stone
there was a stone in the middle of the road
in the middle of the road there was a stone.
Carlos Drummond de Andrade
traduzido por
Elizabeth Bishop
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei dêsse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
there was a stone in the middle of the road
there was a stone
in the middle of the road there was a stone.
Never should I forget this event
in the life of my fatigued retinas.
Never should I forget that in the middle of the road
there was a stone
there was a stone in the middle of the road
in the middle of the road there was a stone.
Carlos Drummond de Andrade
traduzido por
Elizabeth Bishop
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei dêsse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade
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Inglês,
Tradutora Elizabeth Bishop
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Y la ciudad ahora es como un plano
Y la ciudad ahora es como un plano
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esta puerta he visto los ocasos
Y ante este mármol he aguardado en vano.
Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana, aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto.
Aquí la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana
Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto.
Borges
De mis humillaciones y fracasos;
Desde esta puerta he visto los ocasos
Y ante este mármol he aguardado en vano.
Aquí el incierto ayer y el hoy distinto
Me han deparado los comunes casos
De toda suerte humana, aquí mis pasos
Urden su incalculable laberinto.
Aquí la tarde cenicienta espera
El fruto que le debe la mañana;
Aquí mi sombra en la no menos vana
Sombra final se perderá, ligera.
No nos une el amor sino el espanto;
Será por eso que la quiero tanto.
Borges
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Borges,
Espanhol,
O espaço ao redor e além,
Sem tradução
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